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Régis Medeiros, presidente da ABIH-CE, fala sobre as transformações no setor hoteleiro cearense

À frente da presidência da ABIH Ceará até 2024, Régis Medeiros fala sobre as perspectivas para a hotelaria no Brasil e como o Estado vem ganhando destaque no setor, que aos poucos volta à normalidade e se recupera do impacto causado pela pandemia de covid-19. Para ele, o desenvolvimento da cadeia do turismo só é possível com o trabalho feito por várias mãos

Crisley Cavalcante
economia@ootimista.com.br

Um homem que tem nas veias a marca do turismo cearense. Iniciou sua carreira na área ainda na universidade por causa de um empreendimento familiar e, aos poucos, foi conduzindo a sua história profissional pautada no segmento. Nos anos 2000, entrou para a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis no Ceará (ABIH) e tornou-se um dos grandes colaboradores e impulsionadores do setor. Reconduzido recentemente à presidência da entidade, Régis Medeiros fala ao O Otimista sobre o momento atual e o futuro da hotelaria, fortemente impactada pela pandemia de covid-19.

Ele destaca o potencial do Ceará e de Fortaleza para o turismo, potencializado pelo hub aéreo, e diz que quanto mais empreendimentos turísticos no Estado, melhor. Medeiros é graduado em administração de empresas pela Universidade de Fortaleza, e possui vários cursos relacionados às áreas de turismo e hotelaria. Além da presidência da ABIH-CE, é diretor dos hotéis Villa Mayor e Villa Smart.

O Otimista – Quais foram os principais desafios da hotelaria no período mais crítico da pandemia?

Régis Medeiros – O hotel não fecha nunca. É algo que passa 365 dias por ano 24 horas por dia. Não tem sábado, domingo ou feriado, Natal ou Ano-Novo. É uma coisa que sempre está funcionando, isso por si só já é um desafio. Mais um dos maiores desafios foi a pandemia de covid-19. Pela primeira vez na minha vida, eu fechei o hotel e passamos praticamente quatro meses sem funcionar. E um hotel fechado é um elefante deitado, ele não para de beber e de comer. Então, não é apenas passar uma chave e fechar o hotel. A gente tem que manter funcionários, tem que estar limpando, tem que ligar equipamentos, como ar-condicionado e televisor, e abrir os quartos para não dar mofo, manter a piscina, enfim. Manter toda estrutura para quando ele reabrir não estar deteriorado. Além disso, tivemos aumentos nos custos com energia, água e insumos. Os preços subiram demais, assim como sentimos em nossas casas. E nós não conseguimos repassar isso para os valores das diárias.

O Otimista – E como está sendo o retorno do setor, ainda que de forma gradual, com a volta das atividades econômicas no Ceará?

Régis Medeiros – Estamos voltando para a economia, começando a movimentar, mas ainda com a uma ferida muito grande aberta. O caixa dos hotéis foi à míngua. Existem débitos de tributos, empréstimos,  o problema da inflação que não conseguimos repassar para as tarifas, então tudo isso é uma dificuldade ainda muito grande. Temos conversado com o poder público em muitos momentos e pedido uma ajuda porque nós não tivemos descontos de absolutamente nada em termos de tributos e outro tipo de coisa, no âmbito municipal e estadual.

O Otimista – O que o senhor pensa sobre o futuro da hotelaria?

Régis Medeiros – A hotelaria se reinventou um pouco. Mais do que nunca, o setor tem que focar na entrega ao  cliente. Não é só o tijolo e a infraestrutura. Mas o serviço ser mais personalizado, mais intimista com os hóspedes nas suas necessidades, na maneira de tratá-los. O futuro da hotelaria tem que andar um pouco nessa vertente. De observar mais o nosso turista, entregar mais a ele, ver mais as necessidades… É o que eles esperam de nós. Quando você pega aquele hotel muito padrão, que era uma tendência até pouco tempo, hoje a tendência é diferente. As pessoas querem ter experiências e, para isso, precisam estar em um hotel com serviços diferentes, com mais uso da tecnologia, por exemplo. Cardápio com acesso via QRCode, a possibilidade de fazer check-in e abrir o apartamento pelo smartphone. Penso que o somatório dessas coisas é o futuro da hotelaria, principalmente, para um destino como o nosso, de sol e de praia.

O Otimista – O que a hotelaria do Ceará está fazendo em termos de inovação?

Régis Medeiros – Se você for ao litoral do Ceará, você verá que surgiram vários hotéis que estão fazendo muito em termos de inovação, principalmente empreendimentos pequenos, mais intimistas, do nosso litoral.  O Villa Mayor Charme Hotel e o Ville Smart Hotel Conceito, por exemplo, têm uma pegada diferenciada, saindo da caixinha. Nós caprichamos aqui na questão da gastronomia, do paisagismo, luminotécnica, sonorização, para entregar um ambiente confortável, agradável, fazendo o hóspede se sentir numa atmosfera diferente. Temos exemplos de estruturas com diferenciais em inovação muito grandes no Ceará, como é o caso do Beach Park, Aquiraz Riviera, Pedro Laguna, Vila Galé do Cumbuco e outros grandes projetos, fora alguns por Jericoacoara.

O Otimista – Qual a sua avaliação sobre plataformas com o Airbnb, que concorrem diretamente com a hotelaria?

Régis Medeiros – É uma concorrência desleal, porque o IPTU de um apartamento do Airbnb é menor que o de um hotel. Ele não é tributado, não paga ISS, não tem os demais tributos porque nem nota fiscal emite. Nós temos que ter licença de bombeiro, são “n” licenças de funcionamento, o que não ocorre nesses plataformas, pois é um condomínio que tem poucas licenças. É uma realidade que não tem mais volta, mas eu acho que precisa de regulamentação, por conta da segurança de todos e, principalmente, do consumidor.

O Otimista – O senhor fica à frente da ABIH Ceará até 2024. Quais são os principais projetos e metas?

Régis Medeiros – Quando eu entrei na ABIH, em 2000, sempre tive uma veia comercial muito forte. Na época, nós já criamos um grupo comercial para fazer eventos no Brasil. A gente chama as caravanas da ABIH. Em muitos momentos com a parceria da Secretaria do Turismo do Estado ou do Município, em outros, apenas nós mesmos com outros parceiros, operadores, agentes de viagens… Com o arrefecimento da pandemia, estamos colocando novamente o nosso bloco na rua. Nós temos uma cota comercial extra para fazer frente a todas as ações. Neste mês, estivemos no Rio Grande do Sul para um voo em parceira com a Azul Viagens, de Porto Alegre para cá. Também estivemos em Cuiabá para o lançamento de um voo para cá. Teremos, a partir de junho, em parceria com a Setur-CE, eventos passando por Goiânia, Belo Horizonte, São Paulo e Curitiba, para promover os destinos Ceará e Fortaleza. Também trabalhamos a questão da assessoria jurídica com nossos associados, com tudo o que se refere à pandemia. Estamos planejando, ainda, ampliar nosso quadro de associados, fortalecendo a interiorização da entidade, entre outras ações.

O Otimista – Qual é a atual panorama da ABIH Ceará? Como a entidade tem trabalhado com o trade e com o poder público?

Régis Medeiros – Somos hoje 50 associados e temos um planejamento de ampliação, principalmente com a interiorização, tanto para o litoral quanto mais para o Centro e Sul do Estado. Sempre estamos com ações com as demais entidades. A gente sempre está em contato com a Abrasel, sindicatos, empresas organizadoras de eventos, Fecomércio, secretarias de Turismo… Estamos em várias áreas, planejando e pensando ações conjuntas e soluções de problemas, porque é uma verdadeira cadeia produtiva do turismo. É realmente um trabalho de várias mãos.

O Otimista – O fato de ter um cearense na ABIH Nacional ajuda o setor no Ceará?

Régis Medeiros – Lógico. Nós temos o Manoel Linhares, um guerreiro que tem desempenhado um papel fantástico, brilhante à frente da ABIH Nacional, principalmente das grandes questões, digamos, como quase um parlamentar. Temos destaque da participação dele no deferimento de Pis, Cofins e Imposto de Renda da hotelaria, no processo das leis de auxílio e de empréstimos de dinheiro ao setor na pandemia, entre outras ações. Nunca a ABIH teve um protagonismo tão grande em ações tão importantes, e isso é fruto do trabalho do Manoel Linhares.

O Otimista – Sobre o atual turismo no Ceará e em Fortaleza, em relação há anos atrás, o que mudou positivamente? 

Régis Medeiros – Fortaleza é uma metrópole, uma cidade de quase 3 milhões de habitantes, com um grande Centro de Eventos, grandes hotéis e um aeroporto gigante, moderno, internacional, todos esses equipamentos novos ou recém-inaugurados… Há ainda a Estação João Felipe, o Museu da Imagem e do Som, entre outras coisas. Nós temos tudo que uma grande metrópole precisa. Nos desenvolvemos muito no turismo de eventos e também no turismo de lazer. Temos aqui o maior parque aquático da América Latina, outros empreendimentos sendo desenvolvidos no Porto das Dunas. Temos o nosso litoral se desenvolvendo fortemente, com os aeroportos de Jericoacoara, Aracati, Sobral… Isso fortalece o turismo regional. Outro ponto importante é a infraestrutura, principalmente com a construção e revitalização de rodovias que dão acesso aos destinos, além do desenvolvimento econômico do Ceará nos últimos anos, principalmente com o Porto do Pecém. O porto é a joia da coroa do Governo do Ceará, atraindo muitas indústrias e, consequentemente, fortalecendo o turismo de negócios, corporativo. Antigamente, tínhamos somente Jericoacoara e Canoa Quebrada, e alguns outros poucos hotéis no litoral. Hoje é possível encontrar bons hotéis em todo o litoral, de Amontada a Beberibe, além de empreendimentos em regiões serranas do Estado, e também em Juazeiro do Norte. Mas ainda podemos muito mais, diante do nosso grande potencial turístico.

O Otimista – Hoje, qual o perfil do setor hoteleiro no Ceará?

Régis Medeiros – Há empreendimentos para todos os gostos e públicos, dos mais simples aos mais sofisticados, em destinos já conhecidos, e outros que estão ganhando força. O Ceará, como um todo, se renovou muito, com destaque para o turismo. A tendência é se renovar mais ainda. O Aeroporto de Fortaleza é um hub, podemos virar uma referência como destino turístico, sendo o Caribe do Nordeste, já que o Nordeste é o Caribe do Brasil. Estamos na porta do Atlântico, a 8 horas de Paris, a 7 horas de Lisboa, a 8 horas e pouco da Holanda, da Inglaterra, um pouquinho mais, enfim… Estamos bem próximos da Europa, dos Estados Unidos, a 6 horas de Miami, e também da América do Sul, de Buenos Aires, Uruguai, Chile… Precisamos aproveitar isso.

O Otimista – O que você pensa sobre a chegada de grandes resorts e hotéis ao Estado nos últimos anos?

Régis Medeiro – Acho que soma tudo, e isso é ótimo. Em destinos como o Ceará, é preciso ter todos os tipos de hotéis e resorts, pois a espaço no mercado para tosos. Os menores hotéis, intimistas, os hotéis mais econômicos, e com isso ter um grande leque, ter também grandes âncoras… Quanto mais empreendimentos, quanto mais bandeiras, melhor. Não podemos ter receio da concorrência. Tudo vem para somar.

O Otimista – De que forma a hotelaria pode unir desenvolvimento e sustentabilidade?

Régis Medeiros – Um hotel tem que ter sustentabilidade para sobreviver, porque ninguém quer ir a um hotel que esteja degradando uma área, o meio ambiente. Então, eu acho que o casamento do turismo com a sustentabilidade é extremamente necessário. Sustentabilidade, mais do que nunca, é a palavra de ordem na nossa sociedade. É algo que, assim como vem ocorrendo em empresas de diferentes segmentos, também vem fazendo mais parte dos planos de negócio do setor hoteleiro. Nós temos que preservar o meio ambiente, é do meio ambiente que a gente vive, então, é do meio ambiente que o hotel vive também.

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