Jornal Impresso

Haroldo Ferreira, presidente da Abicalçados, destaca o papel do Ceará na indústria calçadista do Brasil

Presidente da Abicalçados, o gaúcho Haroldo Ferreira começou a trabalhar no segmento aos 17 anos. Apaixonado pela indústria calçadista, ele relembra sua trajetória profissional e fala sobre a retomada e expectativas do setor, após o período mais crítico da pandemia. Nesse contexto, destaca o papel do Ceará no processo de expansão da atividade no País

Crisley Cavalcante
economia@ootimista.com.br

Ele começou muito cedo na indústria calçadista. Aos 17 anos, iniciou o trabalho que depois se tornaria uma paixão. Ao assumir a presidência executiva do Sindicato das Indústrias de Calçados da Bahia, em 2005, Haroldo Ferreira, atual presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), tinha a missão de trabalhar pelo desenvolvimento de um segmentos que crescia de forma exponencial em território baiano, gerando emprego e renda. Sua atuação à frente do sindicato chamou a atenção da Abicalçados e, assim, assumiu o conselho sindical da entidade em 2013. Haroldo Ferreira já trabalhava como interlocutor para a criação de um anexo específico de calçados na NR 12 (norma de segurança para máquinas) desde 2008.

Haroldo Ferreira já trabalhava como interlocutor para a criação de um anexo específico de calçados na NR 12 (norma de segurança para máquinas) desde 2008. Nesta entrevista ao O Otimista, além de relembrar sua trajetória profissional, ele fala sobre a retomada e expectativas do setor, após o período mais crítico da pandemia de covid-19. Nesse contexto, destaca o papel do Ceará no processo de caminhada e expansão da atividade no País, que emprega 286,28 mil pessoas.

O Otimista – Fale um pouco sobre a sua trajetória no setor calçadista.

Haroldo Ferreira – Sou gaúcho, natural de Rolante, cidade de pouco mais de 20 mil habitantes da região do Vale do Paranhana, no Rio Grande do Sul. Fui convidado a assumir o posto de presidente-executivo da Abicalçados no fim do ano passado. O convite partiu do então presidente do conselho deliberativo da entidade, Rosnei Alfredo da Silva. Aceitei sem hesitar, já que trabalhava próximo aos pleitos da associação em razão da minha atividade como presidente do Sindicato das Indústrias de Calçados da Bahia. Sou formado em administração de empresas, com pós-graduação em administração da produção e MBAs em liderança e gestão da saúde. Tenho 52 anos de idade, sou casado e pai de dois filhos. Tenho estilo proativo e de proximidade com o quadro de funcionários, algo que herdei dos meus mais de 20 anos de atuação na Azaleia, de 1986 até 2008. Dirigi a parte de recursos humanos na empresa, e a proximidade com os funcionários era algo muito forte para a diretoria da época.

O Otimista – Mas sua carreira começou antes da Azaleia…

Haroldo Ferreira – Sim. Mais precisamente em 1983, quando trabalhei na área administrativa e fiscal da Musa Calçados, grande exportadora da época com sede em Sapiranga, interior gaúcho. Eu tinha 17 anos e foi quando dei início à minha paixão pelo setor calçadista.

O Otimista – De que forma a pandemia de covid-19 afetou o setor calçadista no Brasil?

Haroldo Ferreira – A pandemia teve um forte impacto na atividade. Por sermos ainda muito dependentes do mercado doméstico (mais de 85% das vendas de calçados são realizadas no mercado interno), sofremos muito com os fechamentos do comércio por conta das restrições sanitárias, no período mais crítico da crise. O resultado foi uma queda de mais de 18% na produção. Em 2021, no entanto, passamos a experimentar uma recuperação importante, culminando em um incremento de cerca de 10% na comparação com o ano anterior. Para 2022, a estimativa é que a atividade cresça de 1,8% a 2,7%, em relação a 2021, somando a produção de mais de 820 milhões de pares de calçados. Ainda não recuperaremos a totalidade das perdas com a pandemia, o que deve ocorrer apenas em 2023.

O Otimista – Como o setor está reagindo, principalmente, com o retorno das feiras nacionais e internacionais de calçados?

Haroldo Ferreira – As feiras internacionais são fundamentais para o setor calçadista brasileiro. O retorno dos eventos físicos traz expectativas positivas para seguirmos com a recuperação já registrada no mercado internacional. Quanto às feiras nacionais, que também são muito importantes, a Abicalçados anunciou a realização da primeira edição de uma mostra promovida pelas indústrias e para as indústrias. O evento terá duas edições anuais, sendo a primeira em novembro de 2023. Nós firmamos parceria com a NürnbergMesse Brasil para realização da feira da indústria calçadista brasileira. É uma empresa alemã de atuação internacional especializada na realização de feiras setoriais, que será responsável pela organização do evento. A NürnbergMesse Brasil foi selecionada por meio de uma concorrência com promotoras de eventos nacionais e internacionais, sendo a que mais se destacou não só no atendimento de premissas das empresas, como também pelo potencial de entrega de eventos com qualidade excepcional.

O Otimista – Essa feira será realizada anualmente?

Haroldo Ferreira – A feira da indústria calçadista brasileira terá duas edições anuais, a primeira ocorrerá em novembro de 2023, no Rio Grande do Sul, lançando as coleções de outono-inverno 2024. A segunda edição será em São Paulo, em maio de 2024, e lançará as coleções de primavera-verão 2024/2025.

O Otimista – Como o Brasil figura no mercado mundial de calçados?

Haroldo Ferreira – O Brasil é o maior produtor de calçados fora da Ásia e o quinto maior do mundo, atrás de China, Índia, Vietnã e Indonésia. Com queda em todos os indicadores da indústria calçadista, 2020 foi um ano que trouxe inúmeros desafios, com o início da pandemia. Para o setor, que tem mais de 85% das suas vendas realizadas no mercado doméstico, o abre e fecha do varejo físico gerou uma queda de mais de 18% na produção de calçados e reduziu o uso da capacidade instalada do segmento a 60%, retornando à performance de 16 anos atrás. Como reflexo, registramos a perda de mais de 21 mil postos, chegando ao fim de 2020 com pouco mais de 247 mil postos no setor. Nas exportações, o cenário não foi muito diferente, com uma queda de 18,6%, retornando a patamares de quase quatro décadas atrás. Vamos sentir, por alguns anos, esse impacto. A queda brusca na capacidade instalada deve inibir investimentos mais substanciais no curto prazo. A indústria precisa de mais políticas públicas que auxiliem o desenvolvimento da competitividade, especialmente por meio da desoneração e desburocratização tributária.

O Otimista – Que avaliação o senhor faz do desempenho do Ceará quanto à produção de calçados no País?

Haroldo Ferreira – Em termos de volume produtivo, o Ceará é o principal estado produtor do País. No ano passado, as fábricas cearenses produziram 194 milhões de pares, 24% da produção total do País (806 milhões de pares). Assim como a indústria calçadista brasileira, a indústria cearense passa por um momento de retomada, o que deve se refletir no incremento da produção ao longo de 2022.

O Otimista –  O Ceará e Rio Grande do Sul sempre se destacam nas exportações de calçados. Qual a expectativa para esses mercados nos próximos anos?

Haroldo Ferreira – Não temos a expectativa por Estado, mas as exportações de calçados brasileiros, em geral, devem registrar um incremento de 8% a 10% nos próximos anos, para mais de 134 milhões de pares. Sem dúvida, Ceará e Rio Grande do Sul vão continuar ganhando destaque.

O Otimista – Ações com foco na inovação têm sido destaque em diversos segmentos. Para o setor calçadista, há projetos nesse sentido? 

Haroldo Ferreira – Cada fábrica tem a sua estratégia, mas podemos dizer que o setor calçadista, de um modo geral, tem investido não somente em inovação tecnológica, mas em sustentabilidade. Dados elaborados pela Inteligência de Mercado da Abicalçados apontam que, em 2021, o investimento em ativos imobilizados, como estrutura física e maquinário, foi de R$ 1,45 bilhão, 33% mais do que em 2020. A expectativa é que siga crescendo ao longo de 2022 e dos próximos anos.

O Otimista – Quais são os principais investimentos que a indústria calçadista vem fazendo?

Haroldo Ferreira – A expectativa da Abicalçados é de um crescimento produtivo entre 1,8% e 2,7%, para mais de 820 milhões de pares produzidos. Hoje, o custo produtivo no País ultrapassa R$ 1,5 trilhão por ano, o que representa 6% do PIB (Produto Interno Bruto). Apesar de alguns avanços nos últimos anos, especialmente no que diz respeito à desburocratização, existe um longo caminho a ser trilhado. Somam-se aos problemas relacionados aos custos produtivos, a oscilação cambial, a quebra do fluxo da cadeia produtiva global devido à pandemia, que encareceu fretes e o preço de insumos, e dificuldades de contratação de mão de obra em um momento de reaquecimento do mercado.

O Otimista – Quais são as principais tendências para o setor?

Haroldo Ferreira – O nível de utilização da capacidade instalada torna-se um indicador importante, na medida em que reflete, em parte, a rentabilidade do estoque de capital das empresas do setor. Podemos observar uma tendência de recuperação desse índice. Nos meses de maior impacto da pandemia, o nível ficou em torno de 30%. Por outro lado, a existência de capacidade ociosa significa um potencial de resposta rápida da produção calçadista, frente a um impulso mais consistente de sua demanda, sem a necessidade de vultosos investimentos no setor.

Deixe uma resposta

Compartilhe

VEJA OUTRAS NOTÍCIAS