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Gustavo Araújo: inovação e investimentos na vanguarda das startups

Gustavo Araújo conversou com O Otimista sobre o universo das startups e sua relação com o ambiente corporativo

 

Gustavo Araújo é CEO e co-fundador do Distrito, a maior plataforma de transformação de negócios do Brasil, com mais de 800 startups em casa, 38 mil startups monitoradas, mais de 80 grandes empresas e 120 investidores.

Atento à transformação que acontece no ecossistema de negócios no mundo e no Brasil, Gustavo Araújo conversou com O Otimista sobre o universo das startups e sua relação com o ambiente corporativo. “O Brasil é o país das fintechs, então os serviços financeiros estão puxando essa transformação, inovação”, aponta.

O CEO da Distrito destaca que a “chavinha” da modernização vem sendo acionada no País e investimentos estão acontecendo. “Mudar a maneira de pensar” é a palavra de ordem para que a inovação seja uma realidade consolidada, reforça  Gustavo Araújo.

Provocado sobre “o que as startups que dão certo têm em comum?”, ele responde: “Vemos que a experiência do founder em construir um produto digital, gerir problemas e captar dinheiro faz muita diferença. Por exemplo, empreendedores de segunda ou terceira viagem, como já aprenderam isso em uma primeira jornada, acabam captando dinheiro mais facilmente”. A seguir, mais destaques da entrevista.

O Otimista – Qual é o retrato dos executivos tradicionais, hoje? Estão interessados e antenados em inovação?

Gustavo Araújo – Acho que estão percebendo que há uma transformação muito grande acontecendo lá fora. Principalmente em serviços financeiros. O Brasil é o país das fintechs, então os serviços financeiros estão puxando essa transformação, inovação. Tem muito investimento sendo feito em fintechs, no Brasil, foram mais de R$20 bilhões investidos no ano passado, então esse movimento é muito grande e acho que a turma que trabalha no financeiro das empresas está percebendo que não podem ficar para trás. E, pelo contrário, podem liderar esse movimento, tomar vantagem por causa dessas tecnologias e inovar.

O Otimista – Qual é o primeiro passo para estas grandes empresas começarem a inovar?

Gustavo – O primeiro passo é uma “chavinha” que tem que virar na cabeça das pessoas, é preciso mudar a maneira de pensar. E isso é simples, é chegar no escritório, todo dia, e se perguntar “como eu faço a minha função, ou meu projeto, mais eficiente?”. E é preciso testar hipóteses, testar novas tecnologias. O mesmo consumidor que hoje lida com você, mesmo que a empresa seja “be to be”, é aquele que está em bancos digitais, que usa aplicativos de e-commerce, delivery, estão acostumados com uma experiência de tecnologia muito avançada. Em algum momento essa conta chega para o empresário, que não pode ficar alheio a isso. É preciso igualar essa tecnologia que está sendo usada lá fora. É só pensar em quais hipóteses existem para solucionar um problema, experimentar diferentes tecnologias que vão achar caminhos que funcionam. Alguns não vão, mas os que vão são os que devem receber investimento, mais tempo, mais dinheiro, até encontrar esse caminho de crescimento diferente. Essa é a base do modelo mental e da cultura de qualquer empresa de tecnologia, essa capacidade de inovação muito grande. 

O Otimista – E para a decisão entre desenvolver em casa ou buscar fora de casa, o que deve ser levado em conta?

Gustavo – Acho que as empresas estão acostumadas a investir sem validar o modelo. É feito um projeto, investido muito dinheiro para se descobrir, depois, que aquilo não era o que o mercado precisava. A decisão de construir dentro de casa ou contratar uma solução como serviço, é uma decisão que, enquanto se está validando algo, não se deveria construir dentro de casa. Use o que está pronto no mercado. Se realmente aquilo é grande e estratégico, e isso vai ser descoberto usando um parceiro, depois decide se constrói dentro de casa, se continua usando o parceiro, se investe nele, se compra, mas faz a decisão de investimento depois que experimentou e validou. Essa é, também, a base de crescimento das startups. Elas não têm um modelo de negócios quando nascem, elas precisam justamente encontrar um. E, para isso, precisam criar várias hipóteses, testar todas elas e as que vão funcionando é que irão definir o que vai ser seu produto ou serviço. Na grande corporação, se pode pensar igual.

O Otimista – Qual é o maior desafio das empresas para inovar?

Gustavo – É cultural. Uma vez que exista uma equipe disposta a chegar todos os dias no trabalho que se pergunte “como eu posso fazer isso de forma diferente?”, o principal já está sendo feito, que é a cultura do intraempreendedorismo. Ter essa proatividade de querer resolver. Se estalar isso na cabeça das pessoas, o próximo problema é a ferramenta. Pode ser um hub de inovação, pode ser uma ferramenta como um software, mas agora é o momento de encontrar soluções para validar cada hipótese de uma solução que já existe no mercado. E é onde as ferramentas ajudam, porque é preciso fazer esse “match”.

O Otimista – Como é a relação das grandes empresas com as grandes startups no Brasil, hoje?

Gustavo – É uma relação que está começando a ficar mais robusta. Em 2021 houve uma aquisição de startup todo dia útil. As empresas aprenderam que podem acelerar o processo de transformação digital comprando startups. Isso já é uma realidade, já estão fazendo isso. Outro motivo é o investimento em startups, diferente de comprar. Quando há investimento, quem vai pilotar a startup é o empreendedor. Aí a empresa vai aprender com aquele investimento e vai ter retorno financeiro se a startup for bem sucedida. Já existem muitas grandes empresas investindo e comprando, agora o maior volume da interação entre empresas e startups está na resolução de problemas. Essa inovação aberta está ficando mais recorrente. 

O Otimista – Se as empresas veem nas startups resolvedores de problemas, os investidores veem nas startups uma forma de aplicar seu dinheiro, de ter uma rentabilidade, de conseguir faturar dessa maneira, ao invés de investir no mercado tradicional de ações, ou de aplicar na renda fixa, ou seja, fazer investimento em um capital de risco aportando dinheiro em uma empresa de tecnologia?

Gustavo – Há uma parcela importante dessa equação, que é a diversificação, já que estamos falando de capital de risco. É muito importante diversificar, por isso recomendamos a construção de portfólios de startups, e não investir apenas em uma ou duas. Porque se a startup fizer tudo bem, a chance de dar certo já é pequena. Se ainda falhar pelo caminho, diminui ainda mais essa chance. É algo como a cada 100, cinco ou dez vão para frente, isso é um índice de mortalidade muito grande. É por isso que os investidores profissionais constroem portfólios. É ter uma tese e, em cima dela, buscar diversificação. Hoje, a média de retorno financeiro do venture capital é de 35% a 40% ao ano. É maior do que o produto financeiro mais tradicional, mas é também o de maior risco. A tecnologia está transformando todos os setores. O investidor que queira ter um portfólio balanceado, precisa ter uma parte desse portfólio também exposto a essa transformação.

O Otimista – Esse investidor tem que ser paciente, também, não é mesmo?

Gustavo – É por isso que os fundos de venture capital têm prazos de oito a 12 anos. Para facilitar, pense em uma década que não vai errar. Quando se faz um investimento anjo em uma startup, pode-se pensar em dez anos, não é um investimento onde se consiga sair da startup depois de colocar dinheiro lá. Só vai haver janela para sair caso os próximos investidores queiram comprar os anjos, por exemplo, quem investiu nas rodadas iniciais.

O Otimista – A Distrito é a maior base de dados sobre o ecossistema de inovação, sobre startups, do Brasil. Como você mesmo disse, a chance de mortalidade de uma startup é imensa. Então, acho que dá para responder: o que as startups que dão certo têm em comum?

Gustavo – Vemos que a experiência do founder em construir um produto digital, gerir problemas e captar dinheiro faz muita diferença. Por exemplo, empreendedores de segunda ou terceira viagem, como já aprenderam isso em uma primeira jornada, acabam captando dinheiro mais facilmente. Construir produtos digitais, validar produtos digitais é super complexo. É preciso ser um empreendedor que tenha esse know how para poder ser bem sucedido. Se tem um empreendedor que já aprendeu isso, com certeza ele já está na frente, ele vale mais. Outra variável importante é na série A, por exemplo, quando se consegue já trazer um investidor institucional, um venture capital dos maiores, isso aumenta largamente a possibilidade de sucesso. Porque a partir do momento que se tem um investidor conectado globalmente, ele consegue ajudar nas rodadas posteriores. Uma startup que não tem um venture capital de primeira linha como sócio desde o começo, ele tem menores chances. São diversas variáveis e quanto mais cedo se olha para o negócio, mais as variáveis vão na direção do empreendedor. Quanto mais se olha o negócio no late stage, para startups mais avançadas, aí já se começa a olhar a métrica.

O Otimista – Para muitos empreendedores, uma startup de sucesso é uma que foi investida. Mas isso também pode ser encarado como apenas o começo da jornada. Como é essa trajetória de vida das startups, esse antes e depois do investimento, o que é a relação com os investidores, em uma análise geral?

Gustavo – A startup investida tem um momento de vitória. Mas é preciso pensar que aquele investidor que está entrando agora está pensando em multiplicar o investimento por dez vezes. E outra coisa que o empreendedor tem que pensar é que só vai conseguir captar a próxima rodada se tiver usado bem a rodada anterior, se tiver conseguido construir produto, se tiver conseguido validar o produto, se tiver conseguido vender. Ou seja, se usar mal uma rodada, acabou. Não consegue mais captar dinheiro. O sucesso da captação é artificial e temporário. O empreendedor não deveria considerar isso como uma vitória tão grande, a vitória grande mesmo é a validação do cliente. O dinheiro do cliente vale muito mais que o dinheiro do investidor.

O Otimista – Como você avalia o mercado de inovação e empreendedorismo no Nordeste?

Gustavo – O Brasil tem um grande potencial em geral porque tem problemas estruturais, tem um ecossistema de tecnologia e startups que está crescendo e tem empreendedor de qualidade. E o Nordeste é super famoso de ter cabeças e empreendedores de altíssima qualidade. As maiores faculdades do Brasil, como ITA e IME, têm uma representatividade do Nordeste,lá dentro, muito grande. Tem empreendedor altamente capacitado nesta região. Há um potencial e uma capacidade do empreendedor do Nordeste muito grande. Há cada vez mais venture capital investido em startups no Brasil em geral. Se esse empreendedor consegue se conectar nos hubs de inovação, com os players corretos, ele vai ter acesso ao capital. Assim como o Nordeste criou grandes players tradicionais, de varejo e de várias indústrias, também tem a capacidade de criar grandes players de tecnologia. Por que não o Nordeste se transformar numa grande fábrica de unicórnios?

O Otimista – A geografia já foi muito determinante, e ainda é, para a economia brasileira. A diferença do desenvolvimento do Sudeste, para o Nordeste e para o Norte, por exemplo. Nesse novo modelo de economia, qual é o peso geográfico, o quanto a geografia ainda é relevante?

Gustavo – Há um movimento de descentralização dessa produção de tecnologia acontecendo globalmente. A primeira descentralização foi de sair do vale do silício, mesmo este ainda sendo um dos principais polos do mundo, e ter começado a existir criação de tecnologia de ponta pelo mundo inteiro. E quando falamos do Brasil, sabemos que ainda há uma concentração muito grande em São Paulo, mas hoje já vemos um desenvolvimento desse ecossistema pelo País todo. Existem as comunidades de startups aqui no Nordeste, existem os venture capitals aqui no Nordeste e não é diferente no Centro-Oeste, no Sul. Já vemos uma descentralização acontecendo na produção da tecnologia. Ainda há a questão geográfica? Há. Mas a descentralização vem acontecendo fortemente.

O Otimista – Em termos de tecnologia, o crescimento digital ainda é um gargalo para o Brasil. O Distrito tem uma iniciativa que é formar desenvolvedores, fale um pouco sobre isso.

Gustavo – Temos incentivado várias empresas para a formação de desenvolvedores. No ano passado fizemos um trabalho social, sem fins lucrativos, de formar uma primeira turma de 80 desenvolvedores, um projeto co-realizado com a Johnson & Johnson que depois teve apoio de várias startups da comunidade. Formamos 80 desenvolvedores que nunca haviam escrito uma linha de código, nunca haviam programado nada, escolhemos pessoas que poderiam comprar um curso e que realmente teriam, ali, uma oportunidade de mudar de vida. Tem uma desenvolvedora que já saiu do projeto ganhando R$5 mil de salário, por exemplo. Destes 80, no Distrito nós absorvemos 15 e tivemos o apoio de toda a comunidade, a própria Johnson absorveu e várias outras startups. Todo mundo ganhou. Estatisticamente, a expectativa é que esse desenvolvedor dobre sua receita familiar e ainda resolva o problema da startup de falta de mão de obra.

O Otimista – Um recado para os empreendedores que estão participando do Prêmio Otimista de Inovação.

Gustavo – Continuem nessa jornada. O Brasil é um dos melhores países do mundo para empreender. Estamos vivendo um momento especial no País e na América Latina. O mundo inteiro está, agora, voltando a atenção para esta área. Essa é a chance de empreendedores resolverem um problema real, mas também gerarem emprego e levarem o Brasil para uma transformação digital.

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