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“Eu tenho uma fé inabalável no capital social”

Foi na vontade de formar um grupo de bailarinos “malditos” que Dora Andrade se viu criando algo muito maior: a Escola de Dança e Integração Social (Edisca), fundada há 30 anos. A dança passou a ser ferramenta de transformação e até hoje modifica vidas de crianças, adolescentes e famílias de comunidades em situação de vulnerabilidade social

Helaine Oliveira
helaineoliveira@ootimista.com.br


Dora Andrade é bailarina, coreógrafa e fundadora da Escola de Dança e Integração Social para Crianças e Adolescentes (Edisca). Em 1991, Dora fundou a Edisca, organização educacional sem fins lucrativos, sediada em Fortaleza e que tem como missão a promoção do desenvolvimento humano de crianças e adolescentes que se encontram em situação de vulnerabilidade social.
A Escola recebeu em 2012 a Ordem do Mérito Cultural, maior comenda da Cultura do Brasil, concedida pelo Governo Federal. Os programas e ações voltados para as crianças e jovens atendidos, além dos familiares (sobretudo as mães) são destaques nacionalmente. Ao O Otimista, Dora fala sobre como surgiu a Edisca e o que espera para o futuro.

O Otimista – Você tem um trabalho reconhecido mundialmente. Como foi o início da caminhada?
Dora Andrade – Uma das coisas muito recorrentes na Edisca é que muitas pessoas que estão fazendo suas teses de doutorado em instituições internacionais como na França, em Harvard, chegam até à Edisca achando que o nosso projeto foi algo pensado por grandes pensadores, especialistas em educação e na verdade não foi nada disso. Eu fui bailarina a maior parte da minha vida eu tive muita vontade de ter uma companhia de dança profissional ou semiprofissional e a gente criou um grupo, mais ou menos um grupo dos “malditos”, formado por bailarinos que não vinham das escolas tradicionais, bailarinos que também vinham da periferia e era dureza muito grande pra gente trabalhar com dança. Eu lembro que o primeiro projeto que nós aprovamos nacionalmente era um projeto de apoio, de consolidação de grupos permanentes de dança. A gente tinha que declarar que tinha alguns anos que trabalhava com dança, nós aprovamos o projeto, celebramos, mas depois o órgão foi extinto. Então na época eu peguei o mesmo projeto e apresentei ao Governo do Estado, na época era o Ciro Ferreira Gomes quem estava no cargo e a gente conseguiu algo mais ou menos próximo de um salário-mínimo para os bailarinos e um pouco mais do que isso para coreógrafos. Era algo muito simples, muito pequeno, mas foi nessa base que a gente começou. Para o governo, não era suficiente a gente trabalhar somente com dança. Então eles pediram uma outra contrapartida. Como eu sempre trabalhei na área social de forma pontual, eu pensei que talvez fosse muito bom trabalhar com crianças em circunstâncias de vulnerabilidade. Só que eu me apaixonei por isso, algumas pessoas do meu grupo também e o grupo se desfez, as duas escolas que eu tinha se desfizeram e eu não quis fazer outra coisa de minha vida. Então eu me dediquei a esse tipo de trabalho. Eu não tinha uma ONG, não tinha nada e tive que profissionalizar a instituição e foi com base nas necessidades das crianças e das mães que a gente foi criando as ações e projetos. O primeiro foi sobre nutrição e os demais que vieram foram para aporte psicológico e demais ações de apoio. Então eu digo que a criação da Edisca foi de forma intuitiva.

O Otimista – E daí você pensou a dança como meio de transformação social?
Dora – Eu não pensei a dança dessa forma. Eu não tinha ideia de que a dança poderia fazer isso. Na época, trabalhar com dança era a minha zona de conforto, era o que eu tinha de melhor para oferecer e eu queria fazer alguma coisa. Então foi também na observação do que ia acontecendo que não só na dança, mas na linguagem artística residia um caminho de transformação, de superação e de uma série de coisas que eu via de forma muito concreta. A mudança que acontece numa criança que chega à Edisca fragilizada e ela começa a trabalhar a dança e no dia da estreia dela, ela se sente uma pessoa especial, se sente importante e diferente dos demais. A dança tem uma coisa constante de superação física, a arte tem uma coisa de exigência, de busca pela perfeição, então eu acho que a arte trabalha elementos super exigidos no mundo produtivo. As escolas regulares nem sempre proporcionam aos alunos essa vivência de superação e de se educar de fato.

O Otimista – Durante esses 30 anos de Edisca, o que você identifica de mudanças na sociedade?
Dora – A gente vive em um período de muitas ambiguidades. Esse momento da pandemia nós vivemos com muita força a solidariedade e a generosidade. Todo mundo de alguma forma se mobilizou, seja de famílias ricas ou não, de grandes ou pequenas empresas… todos se mobilizaram para acudir aos mais desvalidos. Na contramão disso tudo eu vejo um homossexual ser espancado, um negro sendo morto em um supermercado por absolutamente nada, então é um momento de muitas contradições, inclusive na forma de se relacionar com as questões sociais e étnicas. Não se admite mais esse nível de intolerância que estamos vivenciando.

O Otimista – E como foi esse período de pandemia para a Edisca?
Dora – Foi um momento de muito aprendizado, mas também de muito sofrimento, por ver nossos iguais que conhecemos há muito tempo e amamos de forma verdadeira passando por muitas adversidades, mas ao mesmo tempo foi tão lindo ver não só os adultos tomando a frente e dizer “você não está sozinho” nesse momento, mas os jovens também. Os jovens educadores, os estagiários, a gente via a felicidade no olhar e o amor que eles tinham ao preparar as cestas com alimentos e kits de higiene… era uma energia muito luminosa e muito necessária pro planeta. Aquele nível de engajamento e prazer na boa luta.

O Otimista – O que você acredita que deve ser feito para modificar esse quadro?
Dora – A primeira coisa é a sociedade refletir sobre a importância das organizações sociais de todo tipo. Eu dou como exemplo a Edisca. Hoje nós temos recurso para garantir ao jovem que se desloque com dignidade da sua casa até a Escola, uniforme, uma refeição balanceada, dentista, acompanhamento escolar, aula de dança clássica, contemporânea, de flexibilidade e força e demais serviços que ele tem à sua disposição dentro da nossa escola. Esse adolescente custa à nossa escola algo em torno de quinhentos reais. Já se você for olhar um adolescente que esteja passando por medidas socioeducativas, ele deve custar algo em torno de cinco mil reais. Se você for ver o que acontece na vida desse menino que está conosco na Edisca num intervalo de dois anos, às vezes é surpreendente do ponto de vista positivo. Agora se você for ver nesse mesmo intervalo a vida de um jovem que está cumprindo medida socioeducativa, às vezes é um filme de terror. Então tem um valor humano acima do valor financeiro na vida dessas crianças e jovens.

O Otimista – Muitas crianças e jovens que chegaram na Edisca continuaram na dança ou despontaram em outras áreas?
Dora – Alguns trabalham ainda com dança, arte, outros em projetos sociais nas comunidades em que habitam. Mas também vejo outros que despontaram como advogados, odontólogos, enfim, a Edisca não foi um espaço criado para formar bailarinos tão somente, mas para formar cidadãos capazes de quebrar com esse ciclo perverso da pobreza. E eu vejo esse ciclo sendo quebrado. Quando eu comecei com a Edisca eu achava que não teria tempo pra ver as mudanças nas vidas desses meninos e meninas, achava que minhas filhas veriam, mas consegui ver mudanças significativas sendo feitas nas vidas deles.. Eu tenho uma fé inabalável no capital social e no ser humano. E eu acredito muito nessa galera.

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