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“É preciso mostrar que jovens e crianças podem se empoderar”, afirma Wagner Barbosa

Diretor-executivo da Casa de Vovó Dedé, que soma quase 30 anos de atividades, Wagner Barbosa contribui desde 1993 com a formação de crianças e adolescentes em vulnerabilidade social residentes na Barra do Ceará. Em entrevista, o engenheiro civil falou dos caminhos construídos pela instituição, da parceria com a TV Otimista e de outros temas pertinentes à infância e adolescência

Danielber Noronha
danielber@ootimista.com.br

Foto: Edimar Soares

O engenheiro civil Wagner Barbosa, 58, recorda com satisfação dos rostos que já cruzaram os corredores da Casa de Vovó Dedé.

Fundada em 1993, a escola construída com o apoio do pai, Mansueto Barbosa, oferece cursos de música, dança, inglês e outras atividades para crianças e adolescentes da Barra do Ceará.

Conhecedor de demandas essenciais da região, Barbosa decidiu fundar o espaço para diminuir índices de analfabetismo infantil no bairro, porém, com o passar dos anos, a instituição sem fins lucrativos ganhou nova roupagem e passou a ser uma escola voltada às artes e à cultura. “Era preciso fazer algo para tirar as crianças da rua no contraturno da escola. A meu ver, não havia nada mais atraente que a arte.”

Para o diretor-executivo da Casa de Vovó Dedé, a melhor forma de mudar a perspectiva de vida de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social é entender a realidade que os rodeia. “É preciso mostrar que crianças e jovens podem se empoderar e que têm direito de conquistar um espaço na sociedade.”

Atualmente, a entidade atende 1.400 crianças e adolescentes, ao todo, e se prepara para lançar mais um projeto: a web rádio, que será comandada pelos próprios alunos. Em entrevista, Barbosa falou sobre a importância de se investir em cultura, os desafios da instituição para se manter ao longo dos quase 30 anos e a parceria com a TV Otimista, entre outros temas.

O Otimista – Quando e como surgiu a Casa de Vovó Dedé?
Wagner Barbosa – Surgiu em 1992. Eu tinha me formado e pedi ao meu pai que emprestasse o terreno onde, hoje, funciona a escola, para colocar material das obras, funcionando como um escritório. E, em muitas das minhas vindas para a Barra do Ceará, percebia a carência presente. O que me chamava atenção é que tinha apenas uma escola no bairro. Na época das matrículas escolares, via mães em filas intermináveis para tentar matricular os filhos. A demanda era muito maior do que a oferta e a consequência disso é que muitas dessas crianças ficavam sem conseguir estudar. Foi então que pensei em construir uma escola onde funcionava o escritório, com objetivo de atender crianças que já estavam fora da faixa ideal para a alfabetização. A ideia era que a gente conseguisse fazer uma escola em tempo integral para uma aceleração, tipo um intensivo. Apresentei para o meu pai. Ele gostou e bancou tudo. Tivemos apenas três meses para construir e ganhar o ano letivo de 1993. E assim foi feito: inauguramos em 1993, abrindo para as matrículas em janeiro.

O Otimista – A partir de qual momento o espaço passou a ser uma escola voltada às artes?
WB – Foi em 2002. Quando o meu pai faleceu, a família não tinha condição de manter o trabalho. Essa virada se deu em um momento onde o quadro era bem diferente de quando a escola foi criada. O Ceará já tinha feito boa parte do seu dever de casa, de construir escolas. Não tinha mais razão da gente ‘competir’ ofertando o mesmo serviço. Qual era a deficiência? Era preciso fazer algo para tirar as crianças da rua no contraturno da escola. A meu ver, não havia nada mais atraente que a arte. Como minha mãe é professora de piano, ela levou o piano para a escola e começou a ensinar. Abrimos as primeiras turmas no início de 2002, com aulas de piano, flauta e violão. Foi aí que o resultado começou a florescer.

O Otimista – Ao longo desses quase 30 anos, como a escola fez para se reinventar?
WB – Costumo dizer que a Casa dá uma virada de dez em dez anos. Até 2012, funcionou somente como escola de música. Foi então onde vi que boa parte das crianças já estava entrando na adolescência ou caminhando para terminar o Ensino Médio e não iriam seguir no caminho da música. Vi que a gente podia ir além, para que a Casa pudesse proporcionar inserção no mercado de trabalho para esses jovens. Foi onde surgiu a ideia de criar cursos profissionalizantes ligados à arte. Se tem música, a gente pode gravar. Então, nasceu um estúdio que precisava de profissionais para operar, com curso de formação em técnico de áudio. E, sem tem áudio, pode ter o vídeo, o que fez puxar toda a cadeia produtiva do audiovisual com formação, e esses jovens começaram a se especializar naquilo com que tinham sintonia.

O Otimista – O que pode ser feito para transformar a vida de crianças e adolescentes que vivem em regiões de maior carência?
WB – O primeiro passo é entender a lógica dessa criança e desse jovem que vive na periferia, que são menos favorecidos e possuem referências difíceis de vida. É preciso fortalecê-los por meio do conhecimento e trabalhar a questão da autoestima. É preciso mostrar que crianças e jovens podem se empoderar e que têm direito de conquistar um espaço na sociedade. É isso que buscamos fazer na escola, com 16 cursos de música, audiovisual, aulas de redação, inglês, preparação para o Enem e várias outras atividades. Tudo é uma cadeia. Se o garoto está recebendo uma boa alimentação, recebendo uma gama de ensinamento e valores, além da profissionalização, isso vai refletir na saúde e o Estado vai gastar menos. Essa é a melhor maneira que um governante pode ter para combater a criminalidade a longo prazo. Se você pensa em um geração nova que está se formando e cuida dessa parcela da população, é possível diminuir a violência porque eles terão outras oportunidades.

O Otimista – Como a escola tem feito para se manter?
WB – Além das doações que a gente recebe, é possível adotar uma criança por um valor mensal. Inclusive, temos também um projeto onde os empresários podem doar parte do Imposto de Renda (IR) devido. Como todas essas ações têm custo, passamos a transformar tudo o que fazemos em uma empresa social, onde a Casa vende serviço e é remunerada por isso.

O Otimista – Como avalia a parceria do setor privado com organizações da sociedade civil?
WB – As empresas estão se transformando e olhando cada vez mais para o lado social. Essa ideia de responsabilidade social é a palavra de ordem em um grande número de empresas no Brasil. Hoje, a gente sabe que não dá para viver com tamanha desigualdade de renda e social. Vejo empresários entendendo que o lucro social é tão importante quanto o financeiro. É preciso que a gente mostre resultados e tenha indicadores de como o investimento pode retornar para a sociedade.

O Otimista – Há uma parceria como a TV Otimista. Como vai ser essa colaboração?
WB – Nós temos uma turma de audiovisual sendo formada. Ela irá trabalhar em um projeto que já nasce vitorioso. Será como um estágio na TV Otimista. A Casa só tem a agradecer por essa oportunidade. Estamos falando de 20 jovens que vão atuar naquilo que já estudam na Casa.

O Otimista – Com a reducão da velocidade de novos casos de covid-19 no Ceará, as aulas da escola estão retornando?
WB – Alguns cursos profissionalizantes e de instrumentos estão voltando, dentro de todas as medidas sanitárias. Estamos analisando a situação das crianças, observando com quem elas moram, se há algum idoso ou alguém com comorbidade na família. Caso seja constatado risco, a criança não retorna agora e deixa para um momento em que a situação esteja mais controlada. Também retomamos alguns sonhos e estamos nos preparando para lançar um estúdio de web rádio na Casa ainda este mês.

O Otimista – Acredita que as pessoas sairão melhores quando a crise sanitária passar?
WB – As pessoas se humanizaram mais. Entenderam que a vida é um sopro e começaram a repensar valores e formas de viver. Espero que isso se torne constante e não tenha sido somente um surto em função de um momento. O assistencialismo como foi feito, pontualmente, foi importante porque muitas pessoas perderam seus empregos, mas é preciso ajudar a desenvolver projetos e programas que possam transformar a qualidade de vida dessas pessoas a longo prazo para que elas não venham a precisar novamente. Acho que as pessoas vão se unir mais e pensar mais no próximo.

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