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“Aprendi muito mais nas derrotas que nas vitórias”, afirma Renan Calheiros

Senador se aproxima de 40 anos de vida política nacional. Alagoano conversou com O Otimista em seu gabinete, onde elogiou Pacheco, fez ressalvas a Lira, criticou Bolsonaro e não deixou escapar favoritismo por Lula

Kelly Hekally
Correspondente em Brasília
kellyhekally@ootimista.com.br

Foto: Divulgação

Nos bastidores do Congresso Nacional, muitos são os que falam do caráter de fidelidade que possui Renan Calheiros para com seus aliados. Alagoano na vida política nacional desde o início da década de 1980, o atualmente senador no quarto mandato, após exercer em Brasília os cargos de deputado federal e de ministro da Justiça, no primeiro mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, (FHC), ocupa cadeira no Senado Federal até, pelo menos, 2027.

Presidente do Congresso por quatro vezes – posto do qual foi afastado em 2016 por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), o relator da Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid (CPI da Covid) ocupou interinamente a Presidência da República em 2013. Líder estudantil na década de 1970, o parlamentar, em sua trajetória congressista, acumula a defesa de pautas progressistas, mas soma também envolvimento em polêmicas, a exemplo do caso que ficou conhecido como Renangate, que apurou denúncias de corrupção.

Na última quarta-feira, 17, o nordestino, que passou a ser figurinha de WhatsApp pelas frases ditas na CPI, recebeu O Otimista em seu gabinete, no 15º andar do Anexo 1 do Senado. Na entrevista de respostas objetivas e sorriso solto, Renan Calheiros falou sobre sua relação com o ex-presidente Fernando Collor de Mello, os presidentes da Câmara dos Deputados e do Congresso, o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e Eleições 2022, entre outros pontos. “Se você quer saber, eu sou um sobrevivente”, afirmou uma das mais habilidosas figuras políticas brasileiras.

O Otimista – A CPI chega nesta sexta-feira, 26, a um mês da aprovação de seu relatório final. Está tudo ocorrendo como planejado?
Renan Calheiros – As coisas estão andando normalmente. Ainda estamos cumprindo a agenda de entrega dos relatórios e documentos e vamos pressionar a partir desta semana pelos resultados. Essa CPI se fez à luz do dia, com acompanhamento da sociedade e um apoio popular muito grande. Acessamos o maior número possível de provas, e o relatório concretizou tudo isso. A expectativa que temos é de que os resultados virão.

O Otimista – Certamente, em seis meses de trabalhos da CPI, houve momentos de muitos conflitos…
Renan – Tivemos momentos delicados do ponto de vista da correlação política da CPI. Nunca uma comissão se com um grupo tão hegemônico com relação ao Governo. Em todos os momentos, priorizamos manter a unidade do G7 [grupo de integrantes da cúpula da CPI]. Isso complicava, melhorava, avançava, recuava… Mas chegamos ao final dos trabalhos com as crises superadas. A unidade foi fundamental para aprovar um relatório da maneira que a comissão recomendava.

O Otimista – O vazamento do relatório fez parte de uma estratégia?
Renan – Era importante antecipar a discussão com a sociedade… O que tínhamos posto em prática e discutido com juristas – este último, um legado que vamos deixar para as próximas CPIs. Discutimos com juristas concretização da conduta criminal, especificação dos tipos penais existentes no relatório, se havia genocídio contra os indígenas, se não havia ou não crime comum. Tinha muita gente envolvida naquela discussão, mais de 60 pessoas. Já na primeira fase da CPI, tínhamos muita coisa pronta desse relatório. Claro que ele vazaria, mas não havia nada sigiloso. Eu vinha fazendo deixar claro o que pretendia fazer. De que maneira estava disposto a conduzir. Não foi vazamento porque não houve transferência e quebra de sigilo.

O Otimista – O senhor se tornou figurinha de WhatsApp na CPI…
Renan – [Risos]. Fiquei muito feliz com a maneira como a sociedade acompanhou a CPI. A aderência, o apoio nas redes sociais, onde montaram checagem de informação. Tínhamos essa disponibilidade com absoluta inserção dos internautas, que ajudavam a formular perguntas, sugeriam prioridades da investigação. Fiquei muito feliz, pois a CPI foi uma oportunidade para que pudéssemos cumprir um papel difícil e também restaurar uma relação que havíamos perdido com a sociedade, com a imprensa. E eu procurei me dedicar para que isso no dia a dia se efetivasse.

O Otimista – Qual sua análise do atual momento político do Brasil?
Renan – Temos um governo desgastado com uma possibilidade muito remota de reeleição do presidente da República. A cada dia, despenca a popularidade dele. É evidente que a CPI cumpriu um grande papel nisso. Não era essa nossa prioridade, mas o fato é que a popularidade do presidente se desfez na medida em que o STF decidia algumas questões importantes para a democracia e debaixo dos refletores da CPI. Há um favorito para presidente ano que vem: o ex-presidente Lula. Uma candidatura forte, que reúne todas as condições de ampliar o espectro político pelo centro e de um lado e de outro. Há um presidente que continua caindo, que, se for a 17%, por exemplo, de intenção de votos começa a criar uma expectativa de viabilização da terceira via, o que, evidentemente, complica o cenário da sucessão presidencial.

O Otimista – O presidente Bolsonaro foi eleito num apelo por uma nova política, mas o anseio não se reflete nas pesquisas. O governo não poderia ter dado certo?
Renan – Nunca acreditei que o Bolsonaro poderia dar certo como presidente. No Congresso, ele sempre pareceu um parlamentar despreparado. Não tem plano de governo, desmontou políticas públicas, arrebentou o País do ponto de vista fiscal, inviabilizou investimentos e criou a RP9 [emenda parlamentar do chamado orçamento secreto, criada em 2019 pelo Congresso em articulação com o Executivo Federal], que ele destina apenas aos parlamentares governistas. Um absurdo que não existe em nenhum outro parlamento do mundo.

O Otimista – As circunstâncias apontam que é o único meio de o presidente manter sua governabilidade…
Renan – Está comprovado que é a RP9 é único link dele existente com o Congresso, mas é uma coisa desonesta, inconstitucional, absolutamente. O Orçamento é uma peça pública e não pode ser privatizado. Vira prioridade. O governo não sabe o que fazer, por exemplo, com o financiamento do Auxílio Brasil, que sucede o Bolsa Família. A insegurança do presidente é tão grande que ele tenta substituir um programa permanente por um temporário, e sem ter como viabilizá-lo do ponto de vista fiscal. Isto é muito ruim para o País. Nunca imaginei que pudéssemos ter no Palácio [do Planalto] alguém completamente despreparado, sem ter o que fazer e ainda querendo continuar no poder. Durante este ano todo, ele exerceu a possibilidade de dar um golpe, fazer um retrocesso institucional. A sociedade se rebelou, o Congresso se rebelou, o STF se rebelou, e nós superamos essa etapa dificílima da vida nacional. É o que acho sobre o presidente.

O Otimista – O MDB sempre pareceu casuístico. A sigla mudou depois do impeachment de 2016?
Renan – O MDB é fundamental na governabilidade. Muitas mudanças pelas quais o Brasil passou nos últimos tempos contaram com a participação do partido. Mas o MDB tem um problema de origem: é uma federação de partidos. Em muitos momentos, congregou pessoas de pensamentos políticos e ideias diferentes, e isso gerou problemas. Mas a divergência é algo estatutário no MDB.

O Otimista – Que tipo de problemas?
Renan – Essa coisa do governismo de alguns setores. Claro que não são todos. Sou um exemplo disso. Mas o MDB é um partido enraizado, que tem um papel histórico a cumprir e que já cumpriu no Brasil, país com um quadro partidário arrebentado, uma quantidade muito grande de partidos e uma infinidade do ponto de vista programático e filosófico. Isso afeta muito o MDB.

O Otimista – O senhor foi aliado do ex-presidente Collor. Como é a relação de ambos atualmente?
Renan – Tenho uma relação normalíssima com ele, que foi governador de Alagoas. Eu que o levei para o MDB, e lá o apoiamos à Presidência. Ajudei a bancada a estabelecer o partido na Câmara dos Deputados e fui indicado como líder do governo na Casa. Eu era muito novo. Depois, rompi com ele. Não pertencemos ao mesmo grupo, mas temos uma relação pessoal normal.

O Otimista – Como o senhor vê as presidências de Rodrigo Pacheco (PSD-MG), no Senado e Congresso, e Arthur Lira (PP-AL), na Câmara dos Deputados?
Renan – Acho o presidente do Senado um bom quadro político, além de ele representar um estado estratégico, Minas Gerais. Pacheco tem uma boa relação na Casa e uma prática política respeitável. Tenho boa relação com ele e quero cultivar e manter. Na Câmara, acho que Lira está conduzindo-a equivocadamente, porque a Câmara é uma representação da sociedade… Não pode ser um pressuposto do governo de plantão, e o presidente [Bolsonaro] passa essa concepção a cada momento, de que aparelhou a Câmara. Acho que o desafio do presidente Arthur Lira é demonstrar que a Câmara não foi aparelhada, que vai defender uma proposta para o País e criar fatos políticos independentes. Os poderes precisam ser, claro, harmônicos, mas independentes. Acho que a Câmara por sua maioria têm demonstrado essa independência.

Otimista – O senhor acha que Gilberto Kassab gostaria de ver Pacheco como vice-presidente?
Renan – Acho que o propósito do partido é colocar a candidatura do presidente do Senado à Presidência da República e que ele reúne condições para disputar o cargo. O presidente do Senado exerce, indiscutivelmente, uma liderança na Casa e em Minas, estado muito representativo. Indiscutivelmente, Pacheco engrandecerá, como candidato a vice-presidente da República, qualquer chapa, da mesma forma que engrandecerá sua própria candidatura.

 

O Otimista – O senhor vai trabalhar pela eleição do ex-presidente Lula ano que vem. Trabalharia também para que Pacheco fosse vice na chapa?
Renan – Ainda não. O que vai ficar claro nesse processo são as alianças, quais partidos irão estar no esforço na coligação para a candidatura à Presidência da República e de que maneira esse processo se dará.

O Otimista – O senhor vê mudança no voto majoritário dos nordestinos ano que vem em favor do presidente Bolsonaro?
Renan – Acho muito difícil mudar essa realidade eleitoral do presidente. Para se ter uma ideia, na eleição passada à Presidência, dentro do processo de uma política totalmente criminalizada pela operação Lava Jato e pelo que ela representava – um projeto político – o [Fernando] Haddad, no Nordeste, teve uma ampla maioria de votos. Com Lula candidato, é provável que tenhamos a ampliação desses números. Vejo do ponto de vista da candidatura do Bolsonaro uma realidade muito difícil e acho que piora a cada dia.

O Otimista – Seu nome foi um dos mais expostos pela Lava Jato, senador…
Renan – Eu era presidente do Congresso e fui adotado como uma espécie de ‘presidente do sindicato da política’ durante muito tempo. A Lava Jato se voltou contra o Congresso Nacional, especialmente contra mim, não tendo fato concreto. Fui uma espécie de multi investigado que era presidente do Congresso Nacional. Reagi várias vezes e denunciei o caráter político da operação, o aparelhamento do Ministério [Público Federal – MPF] e setores do Judiciário que o [Sérgio] Moro representa. Aprovamos a Lei de Abuso de Autoridade e o juiz de garantias. Depois do Moro, não há como não se ter um juiz de garantia, para defender as garantias constitucionais e evitar repetição daquilo que lamentavelmente aconteceu. A Lava Jato teve alguns méritos. Tivemos avanços em função dela. O que condenamos foram excessos e tentativas do projeto político de generalizar culpas e criminalizar a política como um todo indistintamente. Ganhamos. O País compreendeu, e o STF materializou tudo que se dizia com relação ao aparelhamento do MP e de setores do Judiciário.

O Otimista – O senhor foi alvo de 25 investigações, com 15 delas arquivadas. Dez seguem em apuração…
Renan – Eles abriam as investigações e depois desdobravam em quatro ou cinco para quantificar melhor. Muitas vezes, fui obrigado a fazer a prova contrária, que, do ponto de vista do processo penal, é a mais difícil das provas. O STF já arquivou mais de ⅔ das acusações que me faziam, e nós vamos arquivar todas, absolutamente pelo mesmo fato, pois não há materialidade ou provas. Havia um desejo político de criminalizar a política e o que representava o presidente do Congresso Nacional.

Otimista – O STF foi muito criticado e acusado de fazer politização. No entanto, durante esta pandemia, passou a ser visto de outra forma, decidindo em favor da coletividade. O senhor acha que houve de fato mudança?
Renan – Acho que sim. No início da Lava Jato, muita gente acreditava que tudo que eles diziam era verdadeiro. Havia uma massificação e a participação dos meios de comunicação. Eu mesmo, em alguns momentos, acreditei que aquele era o caminho que o Brasil deveria seguir, mas fomos sendo apresentados paulatinamente ao que significava do ponto de vista dos interesses e objetivos políticos. Acabou dando no que deu.

Otimista – O senhor está há cerca de 40 anos na política e acumula muitas polêmicas no período. Arrepende-se de algum passo?
Renan – A vida é um longo aprendizado. Não me arrependo de nada, mas obviamente que procurei sair melhor das crises. Acho que, pedagogicamente, são elas que nos ajudam a ser pessoas melhores. Em alguns casos, a agir diferentemente da maneira como agimos lá atrás. Acho que é assim com todo mundo.

Otimista – À exceção da Lava Jato, qual o momento mais difícil da sua trajetória congressista?
Renan – Sinceramente, não sei especificar. Só gostaria de dizer o seguinte: aprendi muito mais nas derrotas que nas vitórias. As derrotas, sem dúvida nenhuma, ensinam muito mais. É preciso tempo, humildade e compreensão para enxergar as coisas dessa forma. Procurei aprender com elas e continuo tentando.

Otimista – O senhor se considera um homem forte?
Renan – Procuro fazer minha parte, mesmo diante de obstáculos. Geralmente, me entrego ao cumprimeiro de algumas missões de interesse público, nacional, da democracia, na defesa dos Direitos Humanos. Se você quer saber, eu, na verdade, sou um sobrevivente [risos e silêncio].

Otimista – Um sobrevivente?
Renan – Tenho 66 anos e ocupei muitos cargos na República. Fui quatro vezes presidente do Congresso Nacional, me elegi para representar o povo em quatro eleições como senador. Tive a honra e a satisfação de ao longo desse tempo todo cumprir esse papel e sempre procurei cumpri-lo da melhor maneira e dando o melhor de mim.

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