Economia

Tensão na troca de comando da Petrobras acende alerta sobre indicadores econômicos do Brasil

Ações da estatal fecharam com queda de 21,5% nessa segunda-feira. Somada à baixa de cerca de 8% dos ativos na sexta-feira, Petrobras perdeu cerca de R$ 102 bilhões de valor de mercado em apenas dois pregões na Bolsa de Valores

A expectativa é que as ações da Petrobras continuem em queda nos próximos dias (Foto: Agência Brasil)

Lucas Braga
economia@ootimista.com.br

Os principais indicadores financeiros do Brasil caíram consideravelmente ontem (22), após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) interferir no comando da Petrobras e sinalizar publicamente outras mudanças em estatais, deteriorando as ações de todas as empresas do governo na Bolsa de Valores (B3) brasileira.

Na sexta (19), Bolsonaro indicou o general Joaquim Silva e Luna como novo presidente da petroleira. Se confirmado pelo conselho de administração da companhia, substituirá Roberto Castello Branco, alvo de críticas do presidente em meio à insatisfação popular com a política de preços da companhia. Castello Branco defende foco no pré-sal e baixo nível de endividamento.

As ações da Petrobras na B3 fecharam em baixa de 21,51% ontem. Somada à baixa de cerca de 8% dos ativos na sexta-feira, a estatal perdeu cerca de R$ 102 bilhões de valor de mercado em apenas dois pregões.

“A mudança no comando da Petrobras faz sentido porque Castello Branco não tem o perfil para tratar do problema, em especial do preço do diesel”, analisa Bruno Iughetti, consultor da área de Petróleo e Energia. “O que não faz sentido é a entrada de um general que também não tem o perfil de olhar para o problema dos preços dos combustíveis, analisando as questões econômicas e sociais e, ao mesmo tempo, defender os interesses da Petrobras”, completa.

Indicadores

Agindo para segurar o câmbio, o Banco Central promoveu o leilão de US$ 1 bilhão em swaps entre no fim da manhã. O dólar comercial fechou em alta de 1,26%, a R$ 5,45. O Ibovespa teve queda de 4,87%, a 112.667 pontos, com volume negociado de R$ 83,64 bilhões.

A intervenção do governo fortalece a projeção de alta da taxa básica de juros (Selic) em março – que ainda está na mínima histórica de 2%. Segundo a pesquisa Focus divulgada ontem pelo Banco Central, a expectativa para a taxa básica de juros é de 4% ao fim de 2021.

Os juros futuros dos Depósitos Interfinanceiros (DI) encerraram a sessão em alta, confirmando a piora na percepção de risco dos agentes financeiros. As taxas do DI para janeiro de 2022 passaram de 3,44% no ajuste anterior para 3,51%; para janeiro de 2023, subiram de 5,14% para 5,29%; para janeiro de 2025, avançaram de 6,72% para 6,93%; e, para janeiro de 2027, dispararam de 7,37% para 7,58%.

Risco

As ações do Banco do Brasil caíram 11,65%, com papéis a R$ 28,83, cada, o que puxou para baixo os papéis de outros bancos como Itaú (ITUB4, R$ 25,61 -7,28%), Bradesco (BBDC3, R$ 20,53, -5,70%; BBDC4, R$ 23,08, -6,56%) e Santander (SANB11, R$ 39,03, -4,01%). Só o BB perdeu R$ 10,88 bilhões de valor de mercado. O Credit Suisse rebaixou a avaliação do BB de outperform para neutra, alegando risco de interferência política, após a ação do presidente sobre a Petrobras. O preço-alvo do banco foi reduzido de R$ 46 para R$ 38.

A expectativa de analistas é que os efeitos da intervenção na gestão da Petrobras também respinguem em outras estatais listadas na Bolsa. “Se ingerências políticas no caso das empresas estatais afetam o preço das ações, a rentabilidade da empresa e dos acionistas, o mercado reage negativamente. Por isso, alguns investidores não apostam de forma alguma em ações de empresas estatais, mas apenas em empresas privadas exatamente por causa do risco político”, explica Ricardo Eleutério Rocha, economista, conselheiro Regional de Economia e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor).

Segundo Fabio Bonchristiano, da Íris Investimentos, as decisões contraditórias de Bolsonaro também assustam o mercado. “O presidente precisa do dinheiro que o aumento da gasolina traz para o governo por causa do Orçamento restrito e diante da continuidade da pandemia, mas está se desfazendo de quem assumiu a postura que traz o aumento de receita”, afirmou. (Com Folhapress)

Aumento dos juros e desvalorização do real são efeitos imediatos da mudança

Tendência é que o dólar fique ainda mais valorizado em relação ao real (Foto: Agência Brasil)

Analistas de mercado ainda esperam uma pressão de alta na curva de juros futuros e um real mais desvalorizado ante o dólar. Considerando os múltiplos agentes do mercado, as dinâmicas de independência administrativa e preços livres, “devem ser preservadas, com alinhamento à paridade internacional equilibrando a oferta e a demanda”, diz Bruno Iughetti, consultor da área de Petróleo e Energia.

As medidas de cunho fiscal em discussão para mitigar os impactos de elevação de preços de combustíveis, como a isenção temporária do Pis/Cofins ou as alterações propostas para incidência do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços)- teriam impactos, ainda que pontuais. “As commodities comercializadas internacionalmente e a paridade trazem previsibilidade e transparência ao mercado”, reforça.

“A briga é para que qualquer pessoa que sente na cadeira de presidente da Petrobras respeite as regras de mercado, os investidores, a paridade internacional, respeite o plano estratégico da empresa”, disse um dos conselheiros que representa os acionistas minoritários, Marcelo Mesquita.

A intervenção de Bolsonaro na Petrobras pode ser o início de um abismo para o País, na opinião do investidor Lawrence Pih, que prevê a demissão do ministro da Economia, Paulo Guedes. Pih afirma que nunca acreditou no potencial liberal de Bolsonaro, diferentemente de grande parte do mercado financeiro.

“Mas a grande maioria do mercado foi na conversa de Bolsonaro. Tanto que até o ex-ministro Sergio Moro caiu nessa conversa. A mim ele nunca enganou. É só olhar o histórico dele. Bolsonaro, quando candidato, vendeu a imagem de pró-mercado, pró-capitalismo e antiestatizante. Os incautos, agora, o enxergam sem maquiagem: estatizante, anti-capitalismo, anti-economia de mercado, socialista, populista, autoritário e uma ameaça à democracia. Receio pelo futuro do nosso país”, afirma. (Com Folhapress)

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