Economia

Spam: ligações indesejadas prejudicam produtividade e invadem privacidade

Segundo pesquisa da Opinion Box/Mobile Time, 92% dos brasileiros já receberam alguma ligação de televendas no celular, e 88% foram importunados por cobrança indevida. Mesmo sendo identificadas pelos smartphones, as chamadas do tipo spam atrapalham a rotina das pessoas

Todos os dias, o empresário Paulo Bezerra Bragança recebe ligações indesejadas / Edimar Soares

Giuliano Villa Nova
economia@ootimista.com.br

Uma importante reunião de trabalho está acontecendo. Decisões precisam ser tomadas, planejamentos estratégicos a serem desenvolvidos. De repente, pausa na concentração, porque o telefone toca: um operador de telemarketing oferece um plano de internet. Após alguns minutos, outra ligação: um representante de planos de saúde faz a oferta de um produto. Quem já não passou por essas situações desagradáveis? Trata-se de um problema que prejudica a produtividade e a eficácia profissionais, especialmente por ocorrerem com frequência e nos mais inesperados momentos.

“Eu recebo essas ligações todo santo dia. O celular já identifica que são spams. Quando eu atendo, a ligação cai, é algo que estão oferecendo para eu comprar, ou cobranças, que não têm nada a ver comigo. Isso tudo é muito inconveniente. Na hora, eu adiciono na lista de números bloqueados, para tentar minimizar o problema, mas ainda continuo recebendo”, conta o empresário Paulo Bezerra Bragança. “É muito complicado, estar no meio de um trabalho, ou processo, e de repente receber uma ligação, pensando que pode ser uma emergência, mas é uma ligação de spam. Isso atrapalha completamente meu rendimento e minha concentração”, reforça.

Essa é a mesma posição de muitos consumidores em todo o País, identificada pela pesquisa “Chamadas Indesejadas no Brasil”, realizada em junho deste ano pela Opinion Box/Mobile Time, com 2.125 brasileiros de 16 anos ou mais que acessam a internet e possuem celular. No total, 92% dos entrevistados já receberam alguma ligação de televendas no celular; 88% já foram importunados por uma chamada de cobrança de desconhecido; e 72% já foram vítimas de tentativa de golpe. Quanto à frequência, 39% dos pesquisados disseram que recebem esse tipo de ligação indesejada todo dia ou quase todos os dias; e 25% deles, algumas vezes na semana.

“Normalmente, essas ligações estão relacionadas à oferta de serviços por empresas, voltadas para o mundo financeiro, ou outro tipo de comércio, e nem sempre partem de empresas de telemarketing. Às vezes, podem ser de um escritório de advocacia ou de cobrança, por exemplo. As listas de números de telefones são obtidas na internet, geralmente por meios questionáveis, por cadastros feitos anteriormente, ou pode ser um sistema que telefona para números aleatórios, para ver se alguém atende”, explica Wendell Rodrigues, professor titular do Departamento de Telemática do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE).

“No fundo, estão atrapalhando a utilização de uma ferramenta de trabalho, pois dependo 100% do celular”, diz o empresário

Prejuízos

Segundo a pesquisa da Opinion Box/Mobile Time, entre as pessoas que já receberam chamadas de televendas no celular, 39% afirmam que as ligações acontecem todo dia ou quase todo dia; entre as que são importunadas diariamente, 51% afirmam receber em média quatro ou mais ligações de televendas por dia.

De acordo com Wendell Rodrigues, com relação às ligações vindas de empresas legalizadas, como bancos, financeiras e companhias telefônicas, o problema maior é o consumidor acabar adquirindo um serviço que não precisava. “O spam realmente prejudica quando vem de algo ilegal, que se caracteriza como golpe, de alguém tentando se passar por sequestrador, ou ameaçando, mandando fazer a compra de crédito de celular ou a transferência de algum valor. Esse tipo de golpe tenta ludibriar pessoas mais vulneráveis, que acabam perdendo dinheiro”, observa.

“Eu já acionei o site Não me Perturbe, da Anatel (https://www.naomeperturbe.com.br/), e cadastrei meu número, para evitar ser acionado por empresas de call center, mas não resolveu, porque elas usam vários números, ficam alternando. No fundo, estão atrapalhando a utilização de uma ferramenta de trabalho, pois dependo 100% do celular, já que lido com marketing e mídias digitais”, conta o empresário Paulo Bezerra Bragança.

Em casos abusivos, consumidor deve buscar seus direitos e exigir reparação por danos

De acordo com o último levantamento do aplicativo de identificação de chamadas Truecaller, o Brasil é o país com o maior número de ligações classificadas como spam: em 2019, foram, em média, 45,6 chamadas recebidas mensalmente por usuário. Quase metade (48%) teve origem em contatos de operadoras de telefonia oferecendo promoções e troca de plano. Dados como esse justificam histórias como a da jornalista Kátia Alves, que sofreu sérios transtornos devido a ligações indesejadas.

“Em dezembro, eu paguei uma fatura do cartão de crédito atrasada, com uma loja de departamentos, mas 15 dias depois me ligaram cobrando, eu falei que já havia feito o pagamento e na manhã seguinte ligaram perguntando se eu não queria adiantar a próxima fatura. E a pessoa questionou: mas você não vai receber o 13º salário? Eu fiquei em choque, como uma atende se mete assim? Outra situação foi com um banco, no qual minha sogra era correntista e recebia a aposentadoria. Ela fez empréstimos consignados e estavam prestes a finalizar, quando ela faleceu, há três anos. Pelo menos duas vezes por mês recebo mensagens ou ligações do banco querendo falar com ela. Já fui diversas vezes na agência, falei com as atendentes, mas não tem jeito”, relata.

Para casos assim, a recomendação dos especialistas é buscar os direitos junto aos órgãos reguladores. “É uma praxe de mercado as empresas utilizarem o telemarketing com o objetivo de oferecerem produtos e serviços, só que isso chega ao ponto de ser uma prática abusiva, na medida em que essas ligações são feitas de modo incessante e o consumidor passa a ter seu sossego, seu trabalho, seu dia a dia perturbados. Diante disso, o usuário pode recorrer aos órgãos de proteção do consumidor, como é o caso do Procon e do Decon, para formalizar denúncias e fazer reclamações.  Caso permaneça essa insistência, ele pode procurar um advogado ou juizado especial para ajuizar uma demanda e entrar com um processo contra essas empresas e pedir uma reparação de danos”, afirma Priscila Macedo, professora do curso de Direito da Uninassau.

“Pode parecer que os órgãos reguladores não tomam providências, mas essas reclamações estão entre as mais comuns que eles recebem. Foi feita uma consulta pública e existe uma proposta de haver um prefixo que identifique esse tipo de chamada, que seria o 0303, a ser utilizado por empresas regularizadas, de telemarketing ou abordagens semelhantes. Então, futuramente, as empresas que quiserem fazer esse tipo de ligação terão que usar esse recurso. No entanto, são propostas em discussão, inclusive relativo a multas e sanções para quem não cumpri-las”, diz Wendell Rodrigues, professor titular do IFCE.

O que fazer?

Veja dicas para evitar o recebimento de chamadas indesejadas, spams e de telemarketing:

1. A primeira providência é fazer o bloqueio no próprio celular: ao perceber que se trata de um número desconhecido, e de ligação indesejada, o telefone permite o bloqueio do número;

2. Outra providência é se cadastrar em sites como o Não me Perturbe, da Anatel, ou similares, que oferece uma lista na qual os consumidores escolhem quais empresas terão as chamadas impedidas. No Ceará, existe o site wapp.mpce.mp.br/DeconAntiMarketing que oferece serviço semelhante;

3. Se o celular não tiver esse recurso, existem aplicativos, como o Whoscall e o Truecaller, que permitem bloquear contatos indesejados;

4. Outra providência é, no caso de recebimento de ligações insistentes e/ou indevidas de empresas de varejo ou bancos e financeiras, procurar o Serviço de Atendimento do Cliente (SAC) da respectiva companhia e fazer uma reclamação formal.

5. Em casos mais graves, é aconselhável que o consumidor faça a contratação de um advogado de confiança para que sejam tomadas as medidas judiciais cabíveis.

Deixe uma resposta

Compartilhe

VEJA OUTRAS NOTÍCIAS