Economia

Trabalho pós-pandemia: pesquisa aponta as tendências no mercado do Brasil

A pandemia de covid-19 foi responsável por acelerar transformações sociais que já estavam em curso. Uma dessas mudanças foi o surgimento de novas formas de trabalho, seja home office ou híbrido, que tendem a ganhar força e outras configurações após o fim da crise sanitária

Trabalhadora “nômade”, a jornalista Rafaela Veras deixou o home office e passou a exercer suas atividades em um coworking (Foto: Edimar Soares)

Crisley Cavalcante
economia@ootimista.com.br

A jornalista Rafaela Veras tem uma rotina agitada. Entre uma reunião com um cliente, uma reportagem ou um evento, o dia passa rapidamente. Desde que a pandemia de covid-19 começou, em março de 2020, o home office era a forma ideal de trabalho encontrado por ela, mas aos poucos a preferência foi mudando. Hoje, ela é uma trabalhadora “nômade”, podendo exercer suas atividades de qualquer lugar que tenha conexão com a internet. Mas decidiu apostar no coworking para ter mais liberdade.

“O modelo 100% home é bacana por um tempo, mas com a videoconferência, que passou a ser maciçamente usada, entre outras situações, senti vontade de trocar experiências fisicamente com outros profissionais e por isso, desde maio de 2021, apostei no espaço do coworking. Tenho a comodidade e a liberdade que preciso ao mesmo tempo, sem usar 100% do meu espaço de casa para o trabalho”, diz Rafaela, que representa no Ceará o veículo de comunicação Glamurama.

“Estou feliz assim e bastante confortável. Foi uma decisão excelente. Para mim, foi um ganho de network, novas parcerias. Aqui, posso receber clientes, caso seja necessário. Por mais que eu programe a minha semana, o meu dia muda sempre. Não tem um dia igual ao outro. Gosto do trabalho livre, da criatividade. É uma motivação a mais não ter uma rotina engessada”, acrescenta.

O dia a dia de Rafaela reforça dados da pesquisa “Modelos de trabalho pós-pandemia”, feita pela PricewaterhouseCoopers (PwC) e pelo PageGroup com brasileiros. O estudo, que aponta as preferências e as expectativas das pessoas em relação à volta ao trabalho presencial, mostrou que 78% das mulheres dizem realizar quase todas as tarefas em home office.

O levantamento aponta ainda que 27% dos colaboradores e 12% dos executivos creem que o home office seja o regime ideal de trabalho. Já 40% dos colaboradores e 46% dos executivos disseram que o modelo híbrido é melhor, enquanto apenas 9% dos colaboradores e 10% dos executivo preferem trabalhar presencialmente de forma integral.

Adaptação

A publicitária Vânessa de Sousa Madeira está totalmente adaptada ao trabalho home office. Mesmo com o arrefecimento da pandemia de covid-19, ela segue exercendo suas atividades de casa e praticamente não se vê mais trabalhando presencialmente. “O trabalho flui muito bem. Hoje, o nosso contato é 100% virtual e conseguimos lidar bem com a rotina, de modo a organizar as demandas diversas e não deixar a produtividade cair”, explica ela, que coordena uma equipe de lançamento de produtos.

“Sinto um pouco de falta do contato com os colegas, mas não chega a atrapalhar na produtividade do trabalho. Acredito que essas novas formas de trabalho vieram para ficar. No meu caso, é muito mais prático, tenho mais qualidade de vida e muitas outras facilidades no dia a dia. Por outro lado, é difícil se desligar. No presencial, a gente vai para casa, mas no home office a sensação é de estarmos sempre trabalhando”, observa.

Vânessa de Sousa também se encaixa na preferência da maioria das pessoas que não tem expectativa em relação à volta ao trabalho presencial (78% das mulheres). Outros 71% dos colaboradores esperam que o ambiente de trabalho se torne mais informal ou flexível, 40% preferem regime híbrido com um ou dois dias por semana no escritório e 72% dos executivos acreditam que a liderança se adaptou ao trabalho remoto.

A publicitária Vânessa Madeira se adaptou muito bem ao home office (Foto: Edimar Soares)

Escritório do futuro deve ser mais informal e com regras mais flexíveis

De acordo com a pesquisa da PwC Brasil e do Page Group, 30% dos brasileiros avaliam que o escritório do futuro deve se tornar mais informal e as regras devem ser mais flexíveis. Esse percentual é quase o dobro do registrado entre os executivos.

Os colaboradores se sentem mais produtivos no home office e com horários mais flexíveis. Já os executivos têm uma percepção mais negativa da produtividade dos funcionários nesses modelos de trabalho. No geral, 25% acreditam que algumas regras devem se tornar mais flexíveis.

“Os líderes agora não podem ficar alheios às necessidades das pessoas, sob pena de perderem alguns de seus melhores talentos. É hora de exercitar a capacidade de aprendizado e adaptação novamente e nos reconstruirmos nesse processo de transformação. Há dois anos, iniciamos um trabalho com equipes totalmente remotas e todos demonstraram grande capacidade de adaptação e resiliência”, destaca a sócia e líder de capital humano da PwC Brasil, Tatiana Fernandes.

Mulheres x homens

O estudo também revela que as mulheres tendem a preferir os modelos remotos de trabalho, como home office integral e regimes híbridos com apenas um ou dois dias presenciais na semana. Um possível motivo para essa preferência é o fato de 78% das entrevistadas relatarem poder realizar todas ou quase todas suas tarefas em home office em comparação com 59% dos homens.

Para Jacqueline Rios, professora do curso de Gestão de Pessoas do Centro Universitário Estácio do Ceará, os profissionais precisam buscar novas adaptações no mercado cada vez mais volátil.

“Há muito tempo essa demanda já existia, ou seja, reformular as novas formas de atuar no mercado de trabalho. Estamos precisando redesenhar as nossas rotinas de trabalho, de forma a entender o mercado e entregar valor”, afirma, apontando que a gestão da carreiras deve ser cada vez mais abraçado pelas empresas.

“Temos que criar condições de poder rapidamente se adequar ao mercado. Os novos modelos precisam ser ajustados com muito protagonismo. O profissional tem que assumir os desafios de caminhar e saber para onde caminhar. Para isso, ele precisa conhecer o seu perfil e encontrar as respostas que o mercado está pedindo”, reforça.

Confira outros dados da pesquisa:

Experiência renovada

No momento em que as empresas analisam diversos modelos de trabalho para receber suas equipes de volta ao escritório, os colaboradores querem ter uma experiência renovada, mais participativa e com interações presenciais. Mas, ao mesmo tempo, não desejam perder a flexibilidade conquistada e que, na visão deles, ajudou a impulsionar sua produtividade.

Cautela com a flexibilidade

Já os executivos, embora reconheçam os ganhos de produtividade do trabalho remoto, se mostram mais cautelosos em relação a mudanças em termos de flexibilidade. Possivelmente eles estão preocupados com as consequências dos novos arranjos na cultura organizacional, no bem-estar da força de trabalho e na retenção de talentos no longo prazo, além dos impactos que as alterações podem provocar na capacidade de sustentar os índices de produtividade e no impulso inovador.

Modelo híbrido é a preferência

Tanto colaboradores como executivos têm preferência pelo regime híbrido com um ou dois dias por semana no escritório como o melhor arranjo para a empresa maximizar a produtividade de seu pessoal. Em segundo lugar na lista de preferências, os colaboradores mencionam o home office integral, enquanto os executivos são favoráveis ao regime híbrido com três ou mais dias no escritório.

Benefícios do regime híbrido

Executivos e colaboradores citam os benefícios do regime de trabalho híbrido na mesma ordem de relevância. O principal deles é a anulação do tempo de deslocamento.

  1. Anulação do tempo de deslocamento

  2. Maior flexibilidade de horários

  3. Poder trabalhar de casa

  4. Estar perto de suas famílias

  5. Mais liberdade na forma de fazer as coisas

  6. Poder se dedicar mais a projetos pessoais

Possíveis desvantagens do trabalho remoto

  1. Falta de contato com as equipes

  2. Impacto na produtividade

  3. Dificuldade de acesso ao sistema da empresa

  4. Ansiedade, preocupação ou falta de motivação

  5. Outros membros da família que moram no mesmo ambiente

  6. Infraestrutura ou local inadequado em casa

  7. Necessidade de manipulação a documentos físicos

  8. Comunicação precária com o gestor direto

 

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