Economia

Conquista da casa própria é o maior desejo do brasileiro

Segundo pesquisa encomendada pela Febraban, o brasileiro segue sonhando com a casa própria. A conquista é o maior desejo para 31% dos entrevistados sobre a principal aspiração que possuem. Políticas públicas de acesso ao crédito ajudam a tornar esse sonho realidade

Candice Machado
candice@ootimista.com.br

Para Edi Gomes, a prioridade no investimento revela a busca por estabilidade e bem-estar. (Foto: Edi Soares)

Teresinha Gomes da Silva foi representante comunitária no bairro Vila Velha, em Fortale- za. Falecida aos 73 anos, em 2021, deixou legado. “Hoje, várias famílias têm sua casa própria por conta dela. Ela sempre foi muito firme, guerrei- ra e acima de tudo, pensava no pró- ximo”, relata o analista de Recursos Humanos, Ediglei Gomes, 24 anos, neto de Teresinha. Edi, como gosta de ser chamado, perdeu o pai ain- da criança. Ele e o irmão também foram criados com a força de outra mulher, sua mãe, Helena Gomes da Silva, empregada doméstica, de 45 anos. Hoje, os três vivem numa casa construída por Teresinha. Mas o que Edi herdou vai além. “A em- patia dela era cativante, foi o maior ensinamento que deixou. Também a força e a garra para trabalhar”.

Pois foi no seu primeiro empre- go que Edi despertou para o sonho da casa própria. “Coloquei isso como uma meta ainda muito cedo, aos 17 anos. Com meu primeiro emprego, como jovem aprendiz, percebi essa possibilidade. Então, essa minha responsabilidade, de realizar esse sonho, é de muito tempo, entendi que isso seria alcançado a longo prazo.”

O sonho

A conquista da casa própria é o maior desejo do brasileiro. Essa foi a resposta de 31% dos entrevistados sobre a maior aspiração que possuem, em uma pesquisa realizada no último mês de dezembro pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe) para a Febraban. De acordo com o estudo, a conquista do lar aparece à frente de fazer uma poupança (19%), aplicar em outros investimentos bancários (25%) e reformar a casa (21%), que completam o pódio dos principais itens no quadro aspiracional da população. Para Edi, a prioridade no investimento revela a busca por estabilidade e bem-estar. “É uma realização que me faz sentir mais seguro para projetar uma família, para ter uma boa qualidade de vida”, explica. Atualmente, o analista de recursos humanos está em processo de escolha e compra do imóvel junto a dois programas de acesso ao crédito para habitação.

A realização

O Minha Casa, Minha Vida, do Governo Federal; e o Entrada Moradia Ceará, lançado no começo de junho pelo Governo do Estado, que visa conceder subsídios de R$ 20 mil para a entrada de imóvel f inanciado dentro das faixas 1 e 2 do programa do programa federal, o que compreende uma renda familiar mensal de até R$ 4.400. O objetivo é contemplar, nessa primeira fase, 10 mil famílias, totalizando um investimento de R$ 200 milhões.

“Sempre fui uma pessoa que gosta de sonhar, melhor ainda é realizar, e esse incentivo foi decisivo. O financiamento não é somente um investimento financeiro, é um projeto a longo prazo, é algo que vai ser meu. O programa Entrada Moradia está sendo essencial. Agora é correr atrás de outros projetos, como veículo próprio, estudos e especialização na minha área fora do país”, conclui e projeta Edi Gomes.

Até o fechamento desta matéria, o programa Entrada Moradia Ceará conta 43 empreendimentos com cadastro aprovado. segundo informações da assessoria de imprensa do governo estadual, são 30 em Fortaleza; cinco em Caucaia; três no Eusébio, outros três em Maracanaú, um no município de Itaitinga e mais um em Aquiraz.

“Atualmente as famílias que já demonstraram interesse ainda estão nos trâmites relacionados à escolha e ao processo de aquisição do imóvel. Lembrando que, feito o cadastro no Entrada Moradia, as famílias passam para os processos habituais de aquisição da unidade habitacional junto à Caixa Econômica Federal. Quando o financiamento é aprovado, a Caixa revisa se a pessoa se enquadra dentro das regras do Programa Entrada Moradia e está cadastrada. A partir daí o subsídio é liberado”, diz a nota da assessoria.

Renda, economia e igualdade: o efeito multiplicador dos programas de habitação

Programas habitacionais com condições mais acessíveis de financiamento possibilitam a redução do déficit da moradia no Brasil. E melhoram o ambiente socioeconômico porque geram emprego e renda, contribuindo para reduzir a desigualdade

Mario Zacchigna: “A construção civil é pilar fundamental para o desenvolvimento do Brasil” (Foto: Divulgação)

O lar é o alicerce para a construção de famílias e comunidades, incide na saúde, no emocional e nas relações sociais. Ter uma moradia digna é mais que um investimento material, revela a busca por estabilidade, segurança e qualidade de vida. É um anseio distante para a maior parte dos brasileiros, avalia o economista e membro da Academia Cearense de Economia, Ricardo Eleutério. “A distância entre a renda da maioria da população e o valor do imóvel é enorme, o que levou o brasileiro a cunhar a expressão ‘o sonho da casa própria’. É um sonho quase inatingível para a maioria da população”, avalia Eleutério.

Entre 2019 e 2022 houve um aumento de cerca de 4,2% na falta de moradias no país, com um déf icit habitacional de 6,21 milhões de domicílios, representando 8,3% do total de habitações ocupadas. A atualização dos dados foi divulgada em abril de 2024 pela Fundação João Pinheiro (FJP), instituição responsável pelo cálculo do índice no país em parceria com a Secretaria Nacional de Habitação do Ministério das Cidades (MCid).

Em 2023, o Ceará registrou um déficit de 234 mil unidades habitacionais, segundo declaração do governador Elmano de Freitas (PT), durante uma cerimônia de entrega de 880 unidades do Minha Casa, Minha Vida (MCMV) em Fortaleza. Após um período recente sem políticas públicas nacionais para habitação, o MCMV foi retomado ano passado pelo Governo Federal, justamente para enfrentar a insuficiência de moradas no Brasil.

Nesse mesmo sentido, o Poder Executivo cearense desenhou também o programa Entrada Moradia Ceará, que atua de forma complementar, subsidiando R$ 20 mil para a entrada do imóvel financiado, sendo cumulativo com outros benefícios, a exemplo do subsídio de até R$ 55 mil do MCMV.

Mais moradia

Sancionado pelo então governador Camilo Santana em 2022, regulamentado e lançado pelo atual governador do Estado, Elmano de Freitas no início de junho, o programa é fruto de uma provocação do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Ceará (Sinduscon). A entidade havia identificado que R$ 8 bilhões de subsídios federais que viriam para o Norte e Nordeste voltavam sem utilização.“Nós fomos averiguar e descobrimos que as pessoas pagavam aluguel, mas não tinham poupança para o valor da entrada para o sonho da casa própria. Era preciso um incentivo”, conta o presidente do Sinduscon, Patriolino Dias de Sousa.

“Agora, ganha quem está adquirindo imóvel; ganha o governo, porque está gerando emprego e renda; ganham os construtores, que estão edificando os empreendimentos; e ganham os funcionários, que estão sendo empregados”, acrescenta o presidente do Sinduscon.

“O impacto desse programa é bastante positivo. A construção civil é um setor de cadeia longa e tem um efeito multiplicador significativo sobre a economia. Ele emprega muita mão de obra, absorve muitos insumos, aço, cimento, ferro, metalurgia, madeira, elétrico. Também demanda pavimentação, água, esgotamento sanitário. O efeito multiplicador é largo”, reforça Eleutério.

Estudos do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece) mostram que o Entrada Moradia vai representar volume de R$ 1,6 bilhão na economia do Ceará. A expectativa é que sejam gerados cerca de 40 mil empregos diretos e indiretos.

Menos desigualdade

Além disso, programas do tipo podem ajudar a reduzir a desigualdade social, destaca Mario Zacchigna, diretor comercial e de marketing da Planet Smart City, empresa pioneira em soluções urbanas inteligentes, já credenciada no Entrada Moradia Ceará.

“Proporcionar moradia digna para famílias de baixa renda melhora a qualidade de vida, oferece segurança e acesso a serviços básicos. Morar em um bairro planejado e seguro contribui para o bem-estar geral das famílias, promovendo uma sociedade justa e equilibrada. Tem tudo a ver com o propósito da Planet Smart City”, diz Zacchigna.

Com 2,889 milhões de trabalhadores formais empregados na construção, o setor foi responsável pela criação de 141.428 vagas de trabalho com carteira assinada somente nos quatro primeiros meses de 2024, o que representa 15% do total de vagas abertas no país.

“A construção civil é um pilar do desenvolvimento econômico e social do Brasil. Além de criar empregos e impulsionar o crescimento de outras indústrias relacionadas, é um grande contribuinte para a arrecadação de tributos. Cada novo projeto da Planet Smart City gera impostos que são revertidos em serviços públicos”, conclui.

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