Economia

Negócios na pandemia: a força das micro e pequenas empresas no Brasil

Dificuldades econômicas desencadeadas pela covid-19 impactaram empresas de diferentes setores, principalmente, as micro e pequenas. Por outro lado, muitos empreendedores viram na crise uma oportunidade de começar, retomar sonhos ou transformar o negócio

Em junho deste ano, a advogada Manuela Praxedes decidiu abrir a “Manu que Faz”, empresa especializada em pudim e bolo sorvete (Foto: Edimar Soares)

Glauber Sobral
economia@ootimista.com.br

Antes de ser reconhecida como pandemia, em março de 2020 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a covid-19 e o seu possível impacto já eram debatidos por países mundo afora. Naquele mês, apresentava-se à humanidade o novo coronavírus. A doença transmitida, principalmente, pelo contato físico entre os seres humanos colocava em xeque os preceitos da sociedade.

A partir dali, o indivíduo se organizaria para viver uma nova realidade, readequar comportamentos, projeções e sonhos. As restrições impostas pelo vírus paralisaram e remodelaram o convívio social. O desafio engatinhava, se modelava, surgia.

No mundo nos negócios, não foi diferente. No Brasil, por exemplo, as dificuldades econômicas desencadeadas pela crise sanitária impactaram empresas de diferentes setores, sobretudo, as micro e pequenas, que hoje representam 72% dos empregos gerados no País e fazem a economia girar.

Por outro lado, muitos empreendedores viram na crise uma oportunidade de começar, retomar sonhos ou transformar o negócio, como foi o caso de Manuela Praxedes com as receitas das avós; da família Girão na venda de pastéis e lanches; das amigas Larissa e Dienifer no marketing; e do trio de sócios da Epopeia, Alanna, Beatriz e Casemiro, no ramo da ilustração e moda. Todas as histórias têm algo em comum: felicidade em empreender e construir novas perspectivas de futuro.

As restrições impostas pelo novo coronavírus paralisaram e remodelaram o nosso convívio social

Conforme Wandemberg Almeida, conselheiro do Conselho Regional de Economia Ceará (Corecon-CE), nesse contexto o “mundo fechou” e as consequências dos bloqueios físicos em tentativa de barrar o contágio do vírus desembocaram nos problemas econômicos em série. “Em diversos países, a economia foi fechando as portas. Ela (pandemia) trouxe um impacto muito forte negativamente para todos os setores da atividade econômica, seja por falta de emprego e/ou renda. Perceba que o impacto foi sentido em cadeia e isso acabou gerando resultados negativos para a economia do Brasil”, contextualiza.

Economista Wandemberg Almeida, conselheiro do Corecon-CE (Foto: Divulgação)

“Temos setores que precisam dessa movimentação, os mais importantes, que são setores chaves para a economia. Os dois, comércio e serviços, acabam sendo afetados diretamente com a suspensão total ou parcial das atividades, tanto pela falta de circulação como também por falta de renda durante a pandemia”, orienta o economista.

Ele destaca que o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil é representado pelas atividades derivadas desses dois setores. “A gente vai ver que o que garante o crescimento é o consumo das famílias, o que está muito relacionado com os setores-chave”, detalha.

“Comércio e serviços acabaram sendo os mais afetados diretamente, tanto pela falta de circulação como também por falta de renda durante a pandemia”

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua apontam que, em média, 377 brasileiros perderam o emprego por hora em um ano pela crise desencadeada pela pandemia de covid-19. O levantamento foi organizado pela IDados com base nos indicadores de abril (últimos disponíveis).

Já o relatório da Global Entrepreneurship Monitor 2020, realizado no País pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), em parceria com o Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBPQ), aponta que a pandemia desencorajou quase 10 milhões de brasileiros do empreendedorismo.

E mais. De acordo com a 10ª edição da Pesquisa “O Impacto da Pandemia do Coronavírus nos Pequenos Negócios”, feita pelo Sebrae e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), 65% das empresas tiveram faturamento anual menos progressivo em 2020 do que no ano anterior, ou seja, a crise teve reflexo na sobrevivência das micro e pequenas empresas.

O empreendedorismo e a arte de se reinventar

Os produtos comercializados por Manu são inspirados nas receitas de suas avós. Ela se diverte ao fazer os produtos sob orientação da “vó Ione” (Foto: Edimar Soares)

A narrativa da advogada Manuela Praxedes, 35, se encaixa nesse contexto. No início da pandemia, a empresária inovou e criou a “Vai Ter Parquinho”. Com as restrições impostas aos eventos por causa da potencialidade da transmissão do coronavírus, o negócio do ramo de festas infantis parou, e o faturamento do empreendimento não vingou.

“Estava tudo indo de vento em popa, eventos semanais, contratos com grandes clubes do Estado, mas a pandemia levou o faturamento da empresa a zero, literalmente, de um dia para o outro”, lembra. A empresa foi a primeira coordenada por Manu depois do distanciamento do ramo da advocacia, após dez anos de atuação.

“A pandemia levou o faturamento da empresa a zero, literalmente, de um dia para outro”

No novo cenário, era hora de apostar em outros horizontes, mais uma vez. Em maio de 2020, a empreendedora criou o “Uma Cesta Diferente”, com a ideia de fazer cestas customizadas. “No começo da pandemia funcionou demais, porque as pessoas não estavam saindo, então, os clientes mandavam presentes nas datas especiais e comemorativas. Mas, depois que os shoppings voltaram a abrir e o comércio entrou em retomada, o faturamento caiu de novo. E aí eu tive que me reinventar mais uma vez”, destaca Manuela. Foi o segundo baque na caminhada da empreendedora durante a pandemia.

Sobrevivência financeira

Manu: “A ideia de ficar parada, inerte, me assombra” (Foto: Edimar Soares)

O economista Wandemberg Almeida reforça que a ideia de empreender ocorre, muitas vezes, diante das dificuldades econômicas e financeiras. “Assim, nasce os novos empreendedores. O brasileiro teve que montar sua própria estratégia, aprender a pensar fora da caixa, sair da zona de conforto para manter um pouco de sua sobrevivência financeira. Acredito muito que nós já tínhamos uma veia empreendedora, mas a pandemia fez com que isso aflorasse ainda mais”, aponta.

Apesar de mais um desfalque, Manuela não desistiu e empreendeu pela terceira vez. “A ideia de ficar parada, inerte, me assombra”, afirma. “Fiz um pequeno investimento com os meus pais me ajudando com material e comecei a fazer o pudim e o bolo sorvete da Manu”, conta. Em junho deste ano, a “A Manu que faz” deu os primeiros passos. “As receitas são muito satisfatórias. Recebo feedbacks maravilhosos que me fazem ter cada dia mais certeza de que estou no caminho certo”.

Conheça um pouco mais da história da @amanuquefaz neste áudio:

 

O digital fortalece o consumo

Roberto Kanter, professor da Fundação Getúlio Vargas (Foto: Divulgação)

Manuela recebe as encomendas pelas redes sociais e faz as entregas. Parte do Bairro de Fátima, onde mora com a família, e percorre diversos bairros da capital cearense. Roberto Kanter, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) na área de Marketing e Vendas e diretor da Canal Vertical, empresa que trabalha com inovação e marketing, destaca que a cearense A Manu que faz se enquadra no novo perfil e forma de consumo estimulados pela pandemia.

“A grande adaptação neste período foi a digitalização do consumo, quer dizer, não só o fato de muito mais produtos sendo vendidos através de plataforma de e-commerce pelo WhatsApp e/ou Instagram. Antes, as pessoas eram muito reticentes a comprar no digital. Algo em torno de 16 milhões de pessoas passaram a consumir produtos pela internet do que não consumiam antes da pandemia. Essa foi a maior consequência. E os que já consumiam digitalmente aceleram o consumo”, contextualiza.

Kanter ressalta que a pandemia acelerou o processo de disrupção nas formas de consumo do brasileiro. “Se você não pode comprar fisicamente, você vai para o digital. É o famoso 10 em 10, dez anos em dez meses. Houve um aumento exponencial da maneira como as pessoas consumiram digitalmente e, obviamente, isso impactou todo o ambiente. O ecossistema do e-commerce, a logística… A gente percebeu a potência de startups, como iFood, surgimento de plataformas que passaram a distribuir seus produtos diretamente. Tudo isso foi consequência do que já aconteceria, mas talvez não na mesma velocidade”, analisa.

Adaptação no Ceará

Carlos Melles, presidente do Sebrae (Foto: Divulgação)

Empreender virou uma necessidade para milhões de brasileiros que enfrentam o desemprego e buscam uma ou outras fontes de renda, contextualiza o presidente do Sebrae, Carlos Melles.

“Desde o início da pandemia do coronavírus, a taxa de empreendedorismo por necessidade saltou de 37,5% para 50,4%, o mesmo nível de 18 anos atrás. Com a crise, 82% dos novos empreendedores alegaram que foram motivados pela carência de emprego. A boa notícia é que a necessidade de empreender pode se transformar em uma grande oportunidade, desde que o empreendedor faça um bom planejamento e fique atento ao que o mercado deseja”, destaca.

“A crise sanitária forçou as empresas brasileiras a acelerarem a adoção de algumas mudanças que já eram apontadas como fortes tendência”

Melles enfatiza que os empreendedores brasileiros sofreram “um duro golpe” com a crise gerada pela pandemia, mas que muitos deles focaram na transformação digital para sustentar seus negócios. “A grande maioria das MPEs tiveram perdas significativas de faturamento e, até o momento, não recuperaram o nível de receita equivalente ao registrado antes da chegada da pandemia ao País. Por outro lado, a crise sanitária forçou as empresas brasileiras a acelerarem a adoção de algumas mudanças que já eram apontadas como fortes tendências. É o caso, principalmente, da digitalização, da entrega por delivery e do trabalho em home office”, acrescenta.

No Ceará, apesar de todas as dificuldade impostas pela pandemia de covid-19, os micro e pequenos negócios se adaptaram bem à nova realidade, observa Joaquim Cartaxo, superintendente do Sebrae-CE.

“Os pequenos negócios tiveram uma capacidade de se adaptar mais rapidamente do que outros segmentos econômicos”

“Acredito que ninguém estava preparado para lidar com o avanço da pandemia, mas os pequenos negócios cearenses tiveram uma capacidade de se adaptar mais rapidamente do que outros segmentos econômicos. Diferentemente das grandes empresas, eles conseguiram lidar mais rapidamente com as mudanças, por estarem mais próximos dos seus clientes e por conseguirem migrar sua operação para o digital com uma maior velocidade”, defende.

Segundo ele, a última pesquisa realizada pelo Sebrae e pela FGV, para medir o impacto da pandemia nos pequenos negócios, mostrou que 73% das MPEs ouvidas no Ceará já vendem utilizando redes sociais, aplicativos ou internet. O levantamento apontou, por exemplo, que as vendas online já são responsáveis por mais da metade do faturamento de 32% das empresas ouvidas no Estado.

MPEs geram 2 milhões de empregos em 12 meses

MPEs garantiram um saldo de 2,09 milhões de empregos no Brasil, nos últimos 12 meses (Foto: Agência Brasil)

O último levantamento organizado pelo Sebrae, com base em dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério da Economia, aponta que as MPEs garantiram um saldo de 2.094.812 empregos no Brasil, nos últimos 12 meses.

O número significa que as micro e pequenas empresas são responsáveis por 71,8% das vagas criadas no País, contribuindo fortemente com o processo de recuperação do mercado de trabalho nacional. A pesquisa indica que o saldo é “quase três vezes superior” ao das médias e grandes que contrataram 717.029 pessoas, de julho de 2020 a igual mês deste ano.

 

Saiba mais:

Micro e pequenas empresas (junho 2021)

871.197 contratações
654.801 demissões

Saldo: +216.396 empregos gerados

Médias e grandes empresas (junho 2021)

663.993 contratações
596.048 demissões

Saldo: +67.945 empregos gerados

Pastel da Branca: potência local, inovação e acesso ao crédito

Branca e as filhas Rafaella (esquerda) e Rebeca (direita) comandam o Pastel da Branca (Foto: Edimar Soares)

O sorriso da família Girão contagia, encanta. Poucas coisas têm o poder de diminuir a alegria da matriarca Branca, 57, e das filhas Rafaella, 32, e Rebeca, 29 anos, contam. A pandemia arriscou na tentativa e balançou “um pouco” a perspectiva do trio de empreendedoras. As três comandam o “Pastel da Branca”, localizado no bairro Serrinha, em Fortaleza.

Recém reformada, no fim de fevereiro de 2020, a pastelaria não pôde abrir no novo espaço devido às restrições do decreto estadual. O sonho da família precisou ser adiado. “Quando faltava apenas uma semana para abrirmos, veio a pandemia. Nós ficamos sem saber o que fazer. A gente tinha feito o primeiro empréstimo para reforma em janeiro”, conta a jornalista Rafaella Girão, que atua na parte administrativa e no atendimento da empresa.

“Foi muito difícil, porque a gente não teve ajuda financeira. Além da questão financeira, a gente também tinha medo do vírus, pois temos contato diariamente com as pessoas, e isso foi um grande desafio”, conta dona Branca, que trabalha na cozinha da pastelaria que leva seu nome.

“Até que transformamos a fraqueza em força, fizemos outro empréstimo de R$ 2 mil e investimos todo em mercadorias”

A situação desanimou, mas não tirou o brilho dos olhos da família. “Até que transformamos a fraqueza em força, fizemos outro empréstimo de R$ 2 mil e investimos todo em mercadorias”, diz Rafaella. Foi neste período também, mais precisamente em 2 de maio de 2020, que o “Pastel da Branca” inovou e criou seu serviço de delivery.

“Sim, agora nós temos delivery!”

“Tô colocando aqui o pedido, pronto anotei”, comunica Rebeca Girão, coordenadora do atendimento, à equipe da cozinha. O novo serviço de delivery mudou o fluxo da filha mais nova entre atender demandas dos clientes, anotar contas e organizar as entregas dos lanches com os dois entregadores ciclistas. O fluxo operacional mudou, expandiu com a adesão ao novo serviço.

As empreendedoras apostaram no comércio eletrônico celular e no delivery para não perder vendas (Foto: Edimar Soares)

O delivery foi articulado a fim de “salvar” o negócio no começo da pandemia. “Ele foi fundamental para que a gente continuasse vendendo nosso produto. Eu senti pelo feedback dos clientes. O serviço foi uma coisa que ajudou bastante na expansão do nosso atendimento. Hoje, atendemos aqui na Serrinha, Itaperi, Parque Dois Irmãos e Itaoca. Nossa maior venda vem no delivery. A adesão ao comércio eletrônico foi ‘uma mão na roda'”, ressalta Rafaella.

Pastel da Branca em espaço novo

No último dia 15 de agosto, a pastelaria completou o 1° ano nas novas instalações, na avenida Bernardo Manuel. “Hoje estamos em um ponto maior, com mais dignidade. Uma cozinha que tinha 3 metros, agora, tem 7 metros. Com certeza, está sendo uma vitória resistir a tudo isso, viu?”, comemora.

Até chegar no número 8099, o “Pastel da Branca” percorreu outros espaços ao longo dos 25 anos de empreendedorismo na Serrinha. Atualmente, o ponto é mais aconchegante para os clientes e colaboradores. “Estamos insistindo porque é algo que envolve o sonho da minha mãe. E sei que tem muito potencial, mas preciso acertar na estratégia e organizar ainda mais os processos”, confessa Rafaella.

Juntas, elas fazem a força

As integrantes da família Girão também são engajadas em ações sociais no bairro onde moram (Foto: Edimar Soares)

Amor Base é o nome da associação da Serrinha que Rafa, a matriarca Branca e outras 14 mulheres participam. O grupo se movimenta através de ações sociais, como as de combate à fome, e de formações voltadas à sustentabilidade. Um desses projetos é a oficina de sabão ecológico, iniciativa do “Pastel da Branca” e da associação comunitária.

Todo óleo usado na pastelaria é reutilizado para produção de produtos de limpeza. Os sabões têm “selinho bonitinho” para que possam ser comercializados. Outro projeto organizado pela pastelaria é o de reciclagem de material plástico.

Branca acredita na força do coletivo. É líder de um grupo de empreendedoras para acesso ao Crediamigo, do Banco do Nordeste, considerado o maior programa de microcrédito produtivo e orientado da América do Sul. “São comerciantes aqui do bairro. Nós temos o Pastel da Branca, uma barbearia, um buffet móvel, uma pequena gráfica e uma loja de miudezas. De seis em seis meses, as microempresárias se reúnem e solicitam crédito para o banco e investem em seus negócios”, diz.

Confira um pouco mais da história do Pastel da Branca neste vídeo:

 

O poder de adaptação e reação à crise

Os micro e pequenos negócios cearenses mostraram poder de adaptação e reação maior do que as médias e grandes empresas. Prova disso é o resultado positivo de geração de empregos, mesmo diante do cenário pandêmico. O setor de serviços foi um dos maiores prejudicados na crise e está sendo também o que tem reagido mais rápido à nova realidade.

Joaquim Cartaxo, superintendente do Sebrae-CE (Foto: Divulgação)

Nesse contexto, o Sebrae-CE tem buscado estratégias para aliviar os efeitos desencadeados pela pandemia de covid-19 nas outras atividades setoriais, argumenta Joaquim Cartaxo, superintendente da entidade. Nesta entrevista, ele dialoga sobre a força das MPEs no enfrentamento às barreiras econômicas impostas pela crise de covid-19.

O Otimista – Qual o comportamento das micro e pequenas empresas (MPEs) cearenses neste período de pandemia?

Joaquim Cartaxo – Elas têm reagido e se adaptando bem em comparação às empresas de médio e grande porte. Os pequenos negócios vêm sendo os grandes responsáveis pela criação de empregos formais. Segundo o estudo realizado pelo Sebrae, a partir da análise dos dados de geração do emprego divulgados pelo Caged do Ministério da Economia, no primeiro semestre deste ano, elas foram responsáveis por cerca de 92% do saldo total de empregos com carteira assinada no Ceará.

O Otimista – Diante dos novas formas de consumo, principalmente em relação ao comércio eletrônico, qual o setor do Ceará que está mais “antenado” com as mudanças impostas pela pandemia?

Joaquim Cartaxo – Em geral, as empresas do setor de serviços, até pela natureza de suas atividades, vem conseguindo se adaptar e encontrar novas formas de atuar no mercado, com uma agilidade maior do que os demais setores. Não é à toa que o setor foi responsável por cerca de 45% dos empregos criados pelos pequenos negócios no Ceará, no primeiro semestre deste ano. Desde o início da pandemia, o Sebrae-CE ampliou seus canais de atendimento remoto, bem como a oferta de produtos e serviços de forma online, para garantir que os empreendedores do Estado tivessem o devido apoio para enfrentar os desafios trazidos pela pandemia.

O Otimista – Qual a relevância das MPEs para o sustento da economia local/ nacional e, consequentemente, para o enfrentamento dos problemas desencadeados pela crise de covid-19?

Joaquim Cartaxo – Em primeiro lugar, é preciso destacar que pequenos negócios respondem por mais de 90% das empresas formalizadas no País, por cerca de um terço do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro e por cerca de 50% dos empregos com carteira assinada. Esta realidade nacional é a mesma dos estados e também da maioria dos municípios brasileiros. São estes pequenos negócios que ajudam a gerar emprego e renda e movimentar as economias locais. E este importante papel se acentuou ainda mais desde o início da pandemia, vide os dados de geração de emprego e criação de empresas.

O Otimista – Qual o papel da sociedade e do poder público nesse processo?

Joaquim Cartaxo – É preciso, cada vez mais, que a sociedade e o poder público, principalmente as prefeituras, compreendam a importância dos pequenos negócios para a geração de emprego e renda local e passem a apoiá-los. O poder público deve desenvolver políticas que contribuam para um ambiente de negócios favorável ao desenvolvimento dos pequenos negócios em seus municípios. E o Sebrae, como sempre, está à disposição para contribuir com este processo.

Saiba mais:

Mais segurança, possibilidade de acessar linhas de crédito, exportar e receber subsídios do governo. Esses são benefícios enumerados pelo Sebrae para abertura de um empreendimento. A informalidade é um risco para os empreendedores, frisa a entidade.

O Sebrae reforça que a legalização de empresas depende da legislação de cada estado. Um guia foi criado para facilitar todo o processo.

Microempreendedor Individual – Para se registrar como MEI, o processo é todo feito eletronicamente, via internet. O Sebrae disponibiliza um manual para o procedimento.

Acesse AQUI 

Microempresa – Para uma micro empresa exercer suas atividades no Brasil, é preciso, entre outras providências, ter registro na prefeitura ou na administração regional da cidade onde ela vai funcionar, no estado, na Receita Federal e na Previdência Social. Mais detalhes no link disponibilizado pelo Sebrae.

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Formalização do negócio: passo para o crescimento

Casemiro e Bia, fundadores da Epopeia (Foto: Divulgação)

A “Epopeia” nasceu em dezembro de 2020, no meio digital, unindo os sonhos de empreender da professora e ilustradora Beatriz Noberto, 23, e do estudante e ilustrador Lucas Casemiro, 23 anos. “A Epopeia nasceu do jeito mais Gen-Z (Geração Z) possível”, sorri Bia.

“O primeiro contato que Case e eu tivemos foi pelo direct do Instagram e sinto que a Epopeia nasceu ali, mesmo sem a gente ter se encontrado pessoalmente. Depois de um mês e meio de muita reunião online, a Epopeia nasceu para o público e a gente viu nosso sonho começando a tomar forma”, descreve a ilustradora.

“Empreender não é fácil. As dificuldades nos fortalecem a partir da luta pela construção do negócio, nos fazendo comemorar cada pequena vitória”

Com o tempo, a demanda de produção da marca foi crescendo e a dupla viu a necessidade de firmar parceria com a estudante Alanna Bezerra, 22. A loja funciona no Instagram há oito meses e começou a crescer a partir da campanha de vacinação contra a covid-19 no Brasil, com produção de moda, POP Bottons e POP t-shirts.

“Empreender no meio digital tem suas oportunidades e entraves. Neste momento, estamos trabalhando para abrir nosso site, adquirir novos equipamentos e formalizar o negócio”, conta Alanna. “Empreender não é fácil. As dificuldades nos fortalecem a partir da luta pela construção do negócio, nos fazendo comemorar cada pequena vitória. Atualmente, rodamos na informalidade”, reforça Casemiro.

Na ilustração, Beatriz, Alanna e Casemiro (Divulgação)

O sócio reconhece a importância da formalização do negócio para o crescimento da Epopeia. “É um sonho que pretendemos alcançar até o fim deste ano e entendemos como um objetivo extremamente necessário para continuarmos crescendo, cumprirmos nossos deveres enquanto cidadãos e gozarmos dos benefícios que um negócio formalizado oferece”, projeta.

“Neste momento, estamos trabalhando para abrir nosso site, adquirir novos equipamentos e formalizar o negócio”, conta Alanna.

Menos burocracia na abertura de empresas

Abrir empresas no Ceará ficou menos burocrático. Desde 1º de janeiro, o prazo de exigências para o registro de uma empresa é de 30 dias. Conforme a Junta Comercial do Estado do Ceará (Jucec), “todas as exigências que ocorrerem no processo devem ser cumpridas dentro do prazo estabelecido, caso contrário, o requerente deverá pagar um novo Documento de Arrecadação Estadual (DAE)” para a abertura do negócio.

Desde o início do ano, passou a ser dispensada a apresentação do Número de Identificação do Registro de Empresas (NIRE) para solicitação de Viabilidade ou Ficha de Cadastro Nacional (FCN). A consulta de viabilidade e a formalização de MEI são realizadas no Portal do Empreendedor do Sebrae.

Alci Porto, diretor técnico do Sebrae-CE (Foto: Divulgação)

Facilidades

O Sebrae tem atuado para facilitar e garantir o apoio às micro e pequenas empresas no Brasil. Prova disso é que a entidade conseguiu aprovar a lei Complementar 123/2006, que estabelece normas gerais relativas ao tratamento diferenciado e favorecido a ser dispensado às microempresas e empresas de pequeno porte”.

“A facilidade foi um passo importante para o empreendedorismo. Hoje, no Brasil, há quase 13 milhões de MEIs registrados no Portal do Empreendedor. Os dados podem aumentar ainda mais, porque são atualizados rapidamente. Isso significa que o empreendedor está se registrando”, observa Alci Porto, diretor técnico do Sebrae-CE.

Ser Contente: foco no digital, guinada na produção e qualidade do serviço como diferenciais

Larissa Santiago e Dienifer Reis comandam a Contente (Foto: Edimar Soares)

Os olhares das diretoras de marketing Dienifer Reis e Larissa Santiago, ambas com 24 anos, são voltadas para o digital. Foi desse jeito que, entre a tela de um celular, um notebook recém comprado e pouco recurso, a Contente.mkt criou vida. “A gente começou 100% online. Não tínhamos nada de espaço físico, nosso atendimento sempre foi por WhatsApp, e-mail e por ligações”, explica Dienifer.

A Contente “estreou” em 27 de maio de 2020. Foi neste dia que foi apresentado ao mercado o “sonho” das estudantes, elaborado de suas casas, Larissa no bairro Maraponga e Dienifer no Joaquim Távora, em Fortaleza, ainda em home office. Na época, o Brasil estava muito mais receoso com o impacto da pandemia.

Para elas, o período era “de insegurança”, mas o interesse de abrir a empresa fez com que as atuais sócias se arriscassem. “A gente foi juntando nossas experiências e fomos nos completando, nos ajudando (Larissa estuda moda e Dienifer, jornalismo). E foi nessa época que o mundo passou a ser mais digital. Muitas pessoas viram o up no digital e foi aí que a gente começou a ser procurada”, conta Larissa.

Bodas de papel: produção em alta e qualidade no serviço

Hoje, a Contente tem espaço físico, desde 10 de julho. Uma área de 24 m² dividida entre o escritório e um estúdio, no bairro Meireles, colorido em uma harmonia de cores branco, verde-catamarã e rosa queimado. A conquista vem a pouco mais de um ano de vida da agência.

“Claro, nesse percurso de um ano todo veio muito trabalho, a gente deu passos muito bem pensados. Foi tudo pensado para nós duas chegarmos até aqui”

Para chegar onde chegaram, Larissa e Dienifer prezaram  pela qualidade na prestação de serviços (Foto: Edimar Soares)

“A gente tem uma bagagem profissional já boa, nós passamos por muita experiência enriquecedora, de você ‘dar o sangue’ e aprender muito. Então, isso influenciou para que a gente estivesse aqui hoje. Claro, nesse percurso de um ano todo, veio muito trabalho, a gente deu passos muito bem pensados. Foi tudo pensado para nós duas chegarmos até aqui”, afirma Dienifer.

Para chegar onde chegaram, Dienifer e Larissa prezaram  pela qualidade na prestação de serviços. “A Contente tem hoje o quádruplo ou quíntuplo de clientes em relação a quando a gente começou”, festeja Dienifer. “O meio de marketing é bastante competitivo. O que torna o diferencial da Contente é saber que a gente preza pela excelência e qualidade do nosso serviço. Eu acho que, quando você trabalha por equipe, divide tarefas e cada um faz aquilo que tem mais afinidade, o resultado se torna incrível. É o ‘chegamos lá'”, completa Larissa.

Conheça um pouco mais da história da Contente neste áudio:

De MEI para ME

Elas comemoram o rápido crescimento da empresa, mas não abrem mão da expansão com responsabilidade (Foto: Edimar Soares)

A história de Dienifer e Larissa destoa da realidade dos brasileiros que perderam renda no auge do cenário pandêmico. Neste período, o percurso das diretoras de marketing se sobressaiu e as sócias precisaram migrar de MEI para ME.

“A gente não estava mais conseguindo caminhar sendo MEI, precisamos ter que dar um passo muito maior para ser ME”

“Junto desse novo momento no nosso espaço físico, veio também nossa transição de MEI para ME. Isso nos deixou muitos felizes, por um lado, porque mostra crescimento. A gente não estava mais conseguindo caminhar sendo MEI, precisamos ter que dar um passo muito maior para ser ME. Mas, com essa transição, também surgem outras responsabilidades como empresa. Nós não planejamos isso tudo do dia pra noite, nós já vínhamos arquitetando ao longo deste ano ter nosso local, dá outros rumos e passos pra Contente crescer. E, e junto ao crescimento, veio a transição para ME, o que tornou o cenário ainda mais desafiador”, frisa Larissa.

As duas eram MEI desde 2018. “A gente está passando por um período de readaptação que veio justamente com o nosso espaço. Praticamente nasceram lado a lado, a mudança para o ME e nosso canto”, orgulha-se. Atualmente, três pessoas prestam serviços à agência.

Perspectiva de um futuro ainda mais contente 

 

No escritório da agência, as amigas e sócias não se arriscam em sonhar com o futuro. Olham para o teto e projetam “como a Contente estará daqui a cinco, dez anos”?

“Que a gente cresça como equipe e em um espaço três, quatro vezes maior. E que nós consigamos abraçar mais responsabilidades”, projeta Larissa Santiago. “Sonho que a gente continue tendo essa leveza nessa sociedade. É uma parceria, união, uma amizade que é muito boa e funciona muito bem, realmente de forma contente”, brinca Dienifer Reis.

Saiba mais:

Fazer a transição de MEI para ME, é obrigatório se a empresa ultrapassar os R$ 81 mil de faturamento anual, informa o Sebrae. Porém, a regra atual poderá ser alterada. É que, no último dia 12 de agosto, o Senado aprovou projeto de lei complementar (PLP 108/2021), que aumenta o limite de faturamento para o enquadramento como microempreendedor individual (MEI) para R$ 130 mil.

A proposta também autoriza o aumento de um para dois no número empregados que o microempreendedor poderá contratar. Hoje, os profissionais cadastrados como MEI podem faturar até R$ 81 mil por ano e contratar somente um funcionário.

A proposta segue para a Câmara e passará a valer a partir de 2022, se for aprovada pela Câmara dos Deputados e sancionada pelo presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido).

De olho no futuro das micro e pequenas empresas

Para se adaptarem à nova realidade, os pequenos negócios têm enfrentado desafios (Foto: Divulgação)

Com a pandemia como pano de fundo, o último um ano e cinco meses não tem sido fácil para as micro e pequenas empresas. A economia sente o reflexo, consequentemente. Para se adaptarem à nova realidade, os pequenos negócios têm enfrentado desafios, reconhecem analistas econômicos.

De Manu Praxedes que “quebrou”, mas não baixou a cabeça, seguiu em frente e criou a Manu que Faz. Da família Girão, que da fama de 25 anos do Pastel da Branca, na Serrinha, construiu laços, inovou e estreou no atendimento por WhatsApp, e segue na “luta” para se reerguer. As empresas migraram para o digital como estratégia de retomada econômica.

“Para os pequenos negócios, a adaptação à nova realidade foi e está sendo alimentada por desafios e reinvenções”

Do eletrônico ao físico. Vem a Epopeia, que deu os primeiros passos no on-line e busca se formalizar, crescer. Do outro lado, fruto do home office, a Contente garante mais um exemplo de que os pequenos negócios sustentaram a economia do País neste período. As diretoras da agência conseguiram aumentar a produção e renda, passaram de MEI para ME e projetam novos rumos na economia digital.

Para o professor Kanter, o “figital” foi uma das “consequências diretas” da crise do coronavírus e deve continuar após o fim do cenário pandêmico. “O mundo não é digital, nem físico. O mundo é figital, físico e digital. A pandemia nos impôs a convicção e a certeza que as empresas precisam ter obrigatoriamente uma presença digital para conciliar seus outros modelos de negócio, mas isso também não significa que o mundo digital é suficiente para que essas empresas consigam crescer de maneira exponencial. Nesse contexto, é preciso contar também com o mundo físico”, aconselha.

A transformação necessária 

O verbo reinventar dominou as perspectivas dos pequenos negócios desde março de 2020, o que tem garantido a sobrevivência e sustentação da economia. “Para enfrentar uma pandemia como essa, nada melhor do que você se reinventar, do que você aprender e fortalecer o seu negócio dentro dos seus planos. Diante disso, a gente está começando a perceber que as micro e pequenas empresas estão voltando a aparecer, a contratar, não como antes no período pré-pandemia”, analisa o economista Wandemberg Almeida.

“A gente está começando a perceber que as micro e pequenas empresas estão voltando a contratar”

“As MPEs estão contribuindo para enfrentar essa pandemia mais de frente, estão ajudando na retomada do crescimento na economia brasileira”, completa o conselheiro do Corecon-CE. No contexto das adaptações, a digitalização do negócio foi tema central dos empreendedores como busca de garantir a sustentação dos negócios.

Digitalização do consumo: presente e futuro

Desde o início da crise sanitária, milhões de pequenos negócios vem incorporando novas plataformas de vendas (Foto: Divulgação)

E a ferramenta do consumo eletrônico ficará ainda mais presente no dia a dia dos empreendedores, salienta Carlos Melles. “Muitas mudanças que a população experimentou durante a pandemia devem se manter, mesmo após o fim do caos sanitário. São mudanças que certamente vieram para ficar. Podemos afirmar que a digitalização é a maior revolução imposta neste período. Desde o início da crise, vimos milhões de pequenos negócios incorporando novas plataformas de vendas: marketplace, redes sociais, WhatsApp, sites próprios, entre outras. Hoje, segundo o Sebrae, sete em cada dez empresas já vendem seus produtos e serviços de modo virtual”, aponta o presidente da entidade.

“Hoje, segundo levantamento do Sebrae, sete em cada dez empresas já vendem seus produtos e serviços de modo virtual”

Daqui para frente, as micro e pequenas empresas que se enquadrarem nesse recorte estarão mais seguras de prosperidade econômica. A pandemia acelerou o processo, argumenta Kanter. “Tudo que a gente fala hoje de omnicanalidade, plataformas de negócios, apps, tudo isso já acontecia normalmente. Apenas as empresas que fizeram o dever de casa antes foram muito beneficiadas e quem não fez, está até hoje correndo atrás do prejuízo”, observa o professor.

Sustentação da economia

A economia aponta sinais de melhora com a retomada de atividades setoriais e o cenário de enfrentamento à covid-19 (Foto: Divulgação)

A economia aponta sinais de melhora com a retomada de atividades setoriais e o cenário de enfrentamento à covid-19, informa o presidente do Sebrae. “A melhora nos números da campanha de vacinação está trazendo mais confiança aos consumidores e aos empresários, que se sentem mais seguros para admitir funcionários”, afirma.

Carlos Melles reforça que as micro e pequenas empresas têm sido as “grandes responsáveis” pela recuperação de empregos no País. “Os pequenos negócios criaram três vezes mais empregos que as médias e grandes empresas, nos últimos 12 meses. Há um ano, as micro e pequenas empresas têm demonstrado sua força na manutenção dos empregos e na diminuição da quantidade de desempregados”, analisa.

 

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