Economia

Mais digital: o varejo que se (re)inventa na pandemia

O comércio foi e vem sendo um dos setores mais afetados pela crise causada pela covid-19. Setor precisou pensar em estratégias e acelerar tendências de negócios, com foco nas vendas online, para minimizar os impactos econômicos que vieram a reboque do novo coronavírus

Foto: Edimar Soares

Aflaudísio Dantas
aflaudisio@ootimista.com.br

A pandemia de covid-19 fez o brasileiro mudar hábitos em nome da própria segurança. Com as medidas de isolamento social e o fechamento de praticamente todas as atividades econômicas no Brasil, no início da crise, empresas de diferentes segmentos foram obrigadas a fechar as portas e demitir funcionários, principalmente, as com menor capacidade de investimento.

Nesse contexto, o varejo foi um dos setores mais afetados e precisou pensar em estratégias e acelerar tendências de negócios para minimizar ao máximo os impactos econômicos que vieram a reboque do novo coronavírus. Apostar mais no digital e se (re)inventar foi e vem sendo um dos principais caminhos encontrados pelos lojistas para salvar empresas e, consequentemente, empregos.

Essa mudança de comportamento, em razão da pandemia, pode ser observada nos números do setor. Estudo feito pela Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), em parceria com a Neotrust, mostra que, em 2020, houve aumento de 68% nas vendas por e-commerce no Brasil, em relação a 2019.

O segmento, que dentro do varejo ocupava fatia de 5%, passou a representar percentual de aproximadamente 10% no ano passado. E, diante das novas medidas restritivas para conter a segunda onda no País, a tendência é que o comércio eletrônico ganhe ainda mais força.

Fortalecimento

Raul Santos, vice-presidente do Ibef-CE (Foto: Divulgação)

O fortalecimento do varejo digital também pode ser percebido pelas informações da Receita Federal. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) diz que o número de notas fiscais eletrônicas ligadas ao e-commerce avançou 37% em 2020, descontando a inflação, totalizando mais de R$ 224 bilhões em compras de produtos pela internet.

Mas a pandemia do novo coronavírus só acelerou uma quebra de paradigmas que já vinha sendo observada no setor, analisa Raul Santos, sócio-diretor da Aveiro Consultoria e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Ceará (Ibef-CE).

“Muitos lojistas que não eram adeptos à tecnologia tiveram que aderir às plataformas digitais de venda por uma questão de sobrevivência dos negócios”

“As empresas, antes da pandemia, já vinham com um forte processo de digitalização, e-commerce, market place. Algumas saíram na frente, mas outras perceberam que precisavam acelerar o processo de digitalização, ou então ficariam para trás e desapareceriam. Muitos lojistas que não eram adeptos à tecnologia tiveram que aderir às plataformas digitais de venda por uma questão de sobrevivência dos negócios”, afirma.

Hoje, devido às medidas de restrição por causa da covid-19, principalmente diante do novo pico da pandemia, as vendas online – seja por entrega, retirada do produto ou drive-thru – ganham mais peso sobre o faturamento das empresas.

Assis Cavalcante, presidente da CDL Fortaleza (Foto: Tapis Rouge)

“Algumas lojas cresceram porque buscaram outras formas de negócio, como a venda online e por WhatsApp”

De acordo com o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Fortaleza (CDL), Assis Cavalcante, o e-commerce em Fortaleza já anda nesse sentido. “Algumas lojas cresceram porque buscaram outras formas de negócio, como a venda online e por WhatsApp”, afirma.

Nesse sentido, ele informa que a CDL realizou campanhas para fomentar o comércio local, sendo os efeitos sentidos em épocas tradicionais do comércio, como a Black Friday. “As vendas aumentaram de 30%. Desse percentual, 70% foram vendas online”, lembra.

Destaque

Freitas Cordeiro, presidente da FCDL (Foto: Tapis Rouge)

Dados da Nuvemshop, plataforma de e-commerce com atuação na América Latina, o Ceará foi o estado brasileiro com maior crescimento em vendas no e-commerce nos dois primeiros meses de 2021, com 523% de avanço.

“O varejo sempre foi muito criativo, e o momento atual nos obrigou a queimar etapas”

“Mas ainda há muito trabalho pela frente para melhorar a rede de logística, que vai permitir que os negócios possam ser competitivos, não só Ceará, mas também em outros estados”, argumenta.

O presidente da Federação dos Clubes de Diretores Lojistas do Ceará (FCDL), Freitas Cordeiro, reforça que o processo de digitalização do varejo é um caminho que precisa ser trilhado por todos os setores, pois não tem retorno. “As vendas online, o delivery, são uma maneira de sobreviver. O varejo sempre foi muito criativo, e o momento atual nos obrigou a queimar etapas”, destaca.

Ele observa que, por conta desse movimento no Estado, a FCDL lançou o Lojas Aqui, plataforma para que filiados e não filiados tenham uma opção segura na internet para manter suas operações.

“Estamos mais experientes”, diz empresário que precisou mudar a estratégia do negócio

Jefferson Davys, proprietário da Benévolo Café & Gelato (Foto: Edimar Soares)

Frustrações profissionais levaram o empresário Jefferson Deywis a buscar novos caminhos e adquirir outras experiências por meio do empreendedorismo. “Queria um lugar onde pudesse construir meus pilares”, explica. Foi na Benévolo Café & Gelato que ele se encontrou. Após quatro anos de muito trabalho, no início de 2020, vieram a surpresa e os desafios impostos pela pandemia do novo coronavírus ao negócio.

“Fomos entendendo como o consumidor desse segmento estava se portando, o que ele ansiava em termos de produto”

O medo do contágio e medidas rígidas de isolamento social fizeram o faturamento cair drasticamente, obrigando a empresa a pensar em novas estratégias. A rede de quatro lojas localizadas em Fortaleza, que estava em plena expansão antes da crise de covid-19, precisou encolher.

Nova frente

Uma padaria chegou a ser aberta, na tentativa de criar uma nova frente de negócio e conter as perdas, mas também precisou ser fechada em razão das dificuldade econômicas. Um processo de franqueamento que nasceu meses antes do início da pandemia ficou em segundo plano. Deywis, então, precisou pensar em soluções para remodelar o negócio.

Foi então que surgiu uma parceria com o Supermercado Pinheiro. Hoje, grande parte dos produtos que eram consumidos nas lojas da Benévolo é escoada para as padarias da rede cearense de supermercados. Nesse processo, as duas empresas passaram a ganhar.

“Levamos a nossa linha de pães, a nossa linha de cafés. Nosso café é do Maciço do Baturité, o que ajuda a fomentar a economia local”, afirma Deywis, que se diz proprietário-colaborador da Benévolo.

Tentativas e erros

Num processo de tentativas e erros, foi entendido que uma fatia dos clientes perdidos com a pandemia poderia ser recuperada com o serviço de delivery. “Fomos entendendo como o consumidor desse segmento estava se portando, o que ele ansiava em termos de produto”, afirma o empresário.

Confira entrevista com Jefferson Davys, proprietário da Benévolo Café & Gelato

Otimizar custos, aproveitar ao máximo as matérias-primas disponíveis, expandir os novos nichos de atuação e seguir inovando são os segredos que Deywis coloca em prática para suportar os próximos meses de crise. O cenário fica ainda mais dramático agora, com Fortaleza enfrentando um segundo lockdown, iniciado nessa sexta-feira (5). Mas Jefferson Deywis não desanima. “Estamos mais experientes”.

Supermercado digital: um caminho sem volta

Vendas mensais pela plataforma digital do Supermercado Pinheiro já representam faturamento mensal da loja física (Foto: Edimar Soares)

Um supermercado na palma da mão. Com a pandemia de covid-19 fazendo parte do cotidiano de todos os cearenses, essa é a forma mais segura de comprar mantimentos para casa. A prática de escolher produtos através de gôndolas virtuais, pelo celular, virou hábito.

O diretor-executivo do Supermercado Pinheiro, Alexandre Pinheiro, avalia que o modelo de compra digital é um caminho sem volta. Hoje, as compras realizadas por meio do aplicativo da empresa representam o faturamento mensal de uma loja física. “As vendas nesse segmento aumentaram mais de 20 vezes depois da pandemia. A gente precisou se reinventar em muitos pontos, tendo que fazer um grande dever de casa”, diz.

“A gente precisou se reinventar em muitos pontos, tendo que fazer um grande dever de casa”

Ao identificar o novo comportamento do cliente, a empresa criou um serviço próprio de delivery por aplicativo, site e WhatsApp. “A digitalização veio para ficar, as coisas não vão voltar a ser como eram”, afirma.

Para Alexandre, o principal desafio desse processo é fazer as compras pelo consumidor, escolher os produtos que o cliente gostaria de receber. Para isso, o Pinheiro montou uma rede específica de colaboradores para as compras remotas, a fim de atender à demanda crescente. O movimento online, em muitos momentos, ultrapassa o volume de pessoas das lojas físicas, com pico de 4 mil clientes por dia.

Confira entrevista com Alexandre Pinheiro, diretor-executivo do Supermercado Pinheiro

Clube de assinatura é aposta de empresa cearense para não perder vendas

Avine Alimentos é pioneira na entrega de ovos no endereço do cliente (Foto: Divulgação)

Durante a pandemia, o consumo dos brasileiros foi impactado e as empresas têm adequado seus métodos para se manterem ativas. Desde o início da crise sanitária, os serviços de entrega, ou delivery, vem apresentando uma curva ascendente. Segundo levantamento realizado pela companhia de soluções digitais Betalabs, os clubes de assinatura voltaram a ser tendência no mercado. Em 2020, o faturamento de negócios baseados nesse modelo apresentou um faturamento de 12% maior que em 2019.

Com a segunda onda de contaminação pela covid-19, a expectativa é que o setor continue em expansão, isso porque as medidas restritivas têm se intensificado em todo o Brasil pela necessidade de conter a nova cepa do vírus. Além das vantagens que estimulam, por exemplo, um planejamento prévio das finanças do assinante e a organização do estoque por parte da empresa para atender a demanda programada.

A empresa cearense Avine Alimentos, por exemplo, criou seu clube de assinaturas, a fim de se adequar ao atual momento. A produtora cearense é pioneira na entrega de ovos no endereço do cliente. No próximo mês de abril, o “Avine em Casa” completa um ano de serviço, impulsionado pela mudança de hábitos dos brasileiros e estimulado pelo crescimento do serviço de assinatura na pandemia.

“O ovo é um produto perecível, mas possibilita um ciclo de entrega maior, então tivemos a ideia de criar o ‘Avine em Casa’, ao invés do delivery clássico”

Segurança sanitária

“O ovo é um produto perecível, mas possibilita um ciclo de entrega maior, então tivemos a ideia de criar o ‘Avine em Casa’, ao invés do delivery clássico. Nosso objetivo, além da expansão dos nossos canais de vendas contemplando os assinantes, é atender aos clientes com segurança sanitária. Assim, não é preciso que ele saia de casa para adquirir nossos produtos. Por meio do sistema de delivery, ele escolhe a frequência com que deseja receber em sua casa o produto da sua preferência, e vamos deixar no endereço indicado no momento da assinatura”, explica Pedro Henrique, diretor comercial da Avine.

Para ter acesso ao sistema de delivery, o cliente precisa acessar www.avineemcasa.com.br. A frequência para recebimento do kit em casa pode ser toda semana, duas vezes por mês ou uma vez por mês, a partir da necessidade do cliente. Todo o cadastro é feito de forma virtual, com isso não há necessidade de deslocamento para contratar o serviço.

Delivery e drive-thru: as novas faces de shoppings em Fortaleza

Shoppings RioMar apostaram no delivery de produtos para não perder vendas na pandemia (Foto: Beatriz Bley)

Alguns shopping centers de Fortaleza recorreram ao meio digital para não verem seus negócios minguarem na pandemia de covid-19. A rede RioMar (Fortaleza e Kennedy) , por exemplo, aderiu ao modelo de vendas por delivery e drive-thru, para evitar prejuízos ainda maiores durante o início da pandemia, quando quase praticamente todas as atividades econômicas foram fechadas.

De acordo com a direção do RioMar, o crescimento tem sido mensal e progressivo. O crescimento entre os meses de janeiro e fevereiro foi de 100%. Do total vendido, 80% saiu da gastronomia do equipamento, com os 20% restantes ficando com os demais setores. Os gestores acreditam que o lockdown decretado pelo governador Camilo Santana (PT), nessa semana, deve impulsionar ainda mais as vendas, tanto por delivery, como pelo drive-thru.

Cerca de 80% dos pedidos feitos pelo delivery do RioMar são feitos ao setor de gastronomia (Foto: Beatriz Bley)

Variedade

“O serviço já conta com cerca de 150 lojas cadastradas dos dois centros de compra, dos mais diversos segmentos, como: gastronomia, casa e decoração, moda e acessórios, artigos esportivos e beleza. Os shoppings são responsáveis por todo o gerenciamento da plataforma, desde a retirada do produto na loja até a entrega no destino desejado pelo cliente”, diz o superintendente regional Ceará do Grupo JCPM, Gian Franco.

O Shopping Iguatemi também conta com serviço de delivery e drive-thru, inaugurado no feriado do Dia das Mães de 2020. Na época, havia expectativa de que ao menos 15 lojas do complexo aderissem à nova modalidade de negócio.

O Otimista procurou a administração do shopping para entender como a nova plataforma de negócio evoluiu durante esse tempo, mas, por meio de sua assessoria de imprensa, o Iguatemi informou que não poderia atender à demanda até o fechamento da reportagem.

Complexo gastronômico da Capital aposta em delivery coletivo como diferencial para clientes

Imprensa Food Square conta com mais de 20 estabelecimentos (Foto: Divulgação)

O pedido é feito online. Uma moça com patins sai distribuindo os itens para os mais de 20 estabelecimentos do Imprensa Food Square, em Fortaleza. Após alguns minutos, a jovem recolhe os pedidos preparados e envia ao entregador. Essa é a dinâmica do empreendimento, localizado no bairro Dionísio Torres.

O que hoje é um complexo gastronômico que funciona como um restaurante só, começou sua história como um estacionamento. “Depois surgiu a necessidade de montar um food square que vai completar seis anos no dia 4 de abril”, diz o CEO do Imprensa Food Square, Pedro Netto.

Pagamento

Ele afirma que o grande diferencial é o cliente poder comprar em vários estabelecimentos pagando apenas um delivery. “É uma experiência muito bem aceita, porque o cliente às vezes tem várias pessoas numa casa, e aí é mais de uma entrega no mesmo endereço. Então juntamos o útil agradável”, explica.

“Tivemos que abrir mão de muita coisa, principalmente, em relação à taxas de aluguel. Tivemos que melhorar o nosso relacionamento, criar um novo trabalho, criamos cine in drive-in”

O modelo de delivery se manteve firme durante a pandemia de covid-19, mesmo também enfrentando as dificuldades econômica impostas pelo novo coronavírus. A solução foi inovar.

“Foi um choque pra gente. Tivemos que abrir mão de muita coisa, principalmente, em relação à taxas de aluguel. Tivemos que melhorar o nosso relacionamento, criar um novo trabalho, criamos cine in drive-in”, elenca Pedro Netto, destacando que a segunda onda de covid-19 está trazendo mais desafios que a primeira, mas que a experiência tem sido um trunfo importante.

“Tivemos que parar e olhar a real necessidade do mercado”

Claudia Gomes, gerente de marketing da Ferrovia (Foto: Divulgação)

A pandemia de covid-19 obrigou a marca cearense de óculos Ferrovia se movimentar e ir até o cliente em isolamento social, alternativa encontrada por diferentes negócios. A empresa tem um grupo de consultores a domicílio e até um canal de vendas online. A gerente de marketing da Ferrovia, Claudia Gomes, explica quais estratégias são mais assertivas neste momento e quais alternativas foram postas em prática. Confira a entrevista.

O Otimista – Qual foi o impacto que a pandemia de covid-19 causou na operação da Ferrovia?

Claudia Gomes – A ferrovia vem se reinventando nesse momento para atender às necessidades dos clientes finais e dos nossos franqueados. Tivemos que parar e olhar a real necessidade do mercado para oferecer o que, de fato,  é uma necessidade e questão de saúde.

O Otimista – Qual foi o maior desafio para conseguir manter o negócio saudável financeiramente neste período?

Claudia – Percebemos que nossos clientes estão ficando mais tempo em casa, seja para trabalhar ou estudar, e dessa forma aumenta a necessidade do uso de óculos de grau ou de proteção contra as luzes emitidas pelos aparelhos eletrônicos. Durante esse período de um ano, buscamos treinar nossas equipes para atender no segmento óptico, nos especializamos e firmamos parceria com os melhores laboratórios do Nordeste para atender nossos clientes em casa.

O Otimista – Houve alguma inovação que a empresa precisou encontrar para sobreviver a esse momento?

Claudia – Hoje, trabalhamos com consultores que vão até as casas dos clientes para levar opções de armações, tirar as medidas e poder produzir os óculos de maneira bem segura e que, de fato, atenda às reais necessidades dos nossos clientes. Criamos uma estrutura de vendas pelo canal online, onde vendedores e parceiros podem usar a plataforma para vender, sem ter que investir comprando as peças. Nosso site está atendendo todo o Brasil e se tornou uma ferramenta a mais para as equipes de vendas.

O Otimista – Como vocês planejam o futuro, agora que temos, além de todo o período de restrições, um novo lockdown em Fortaleza?

Claudia – Entendemos que o momento é de muita cautela, segurança com a saúde de todos. E nosso principal foco, como empresa, está voltado ainda mais a prestar um atendimento exclusivo e personalizado, visando cuidar daqueles que precisam de atenção especial à visão.

Confira depoimento da gerente de marketing da Ferrovia, Claudia Gomes

 

 

 

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