Economia

Investimentos em segurança do trabalho ampliam resultados de empresas no Ceará

Empresas de todos os setores, principalmente da indústria, estão mais conscientes sobre o bem-estar laboral. Segundo o Sesi Ceará, número de acidentes de trabalho caiu 31,8% no Estado de 2019 para 2020 e deve ter nova queda neste ano

Juarez Braga Soares Filho, diretor da Locafort (Foto: Edimar Soares)

Giuliano Villa Nova
economia@ootimista.com.br

“Uma vez, eu vi um funcionário meio tonto, que em seguida iria subir em um andaime, para fazer um serviço. Antes que ele subisse, eu segui um procedimento básico da segurança do trabalho, para trabalhos em alturas, e pedi um aparelho para medir a pressão dele: estava em 16 por 11, altíssima. Não deixei que ele fizesse o trabalho, pois era arriscado. E não deu outra: dez minutos depois, ele desmaiou. E se ele estivesse lá em cima, fazendo o serviço? Poderia ter sofrido uma séria queda. Mas, felizmente, consegui intervir antes que acontecesse um acidente”. O relato do engenheiro Juarez Braga Soares Filho, diretor da Locafort, ilustra a importância da segurança do trabalho no dia a dia das empresas – de todos os portes.

“Com um novo olhar dos órgãos públicos, o advento do eSocial e a nova NR 01 (Norma Regulamentadora 01 – Disposições Gerais e Gerenciamento dos Riscos Ocupacionais), as empresas, independentemente do tamanho, são obrigadas a atender às exigências quanto aos direitos trabalhistas de seus empregados e o direito à saúde. E a segurança não pode ficar de fora”, reforça Nilson Lima de Oliveira, engenheiro e professor de pós-graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho.

Essa conscientização tem se ampliado em todo o setor produtivo. No Estado, de acordo dados do Serviço Social da Indústria (Sesi) do Ceará, de 2019 a 2020, houve queda de 31,8% no número de acidentes do trabalho: de 9.230 para 6.293. Em 2021, até agora, foram notificadas 4.627 ocorrências, sinalizando nova queda neste ano.

Observatório

Um dos instrumentos que colaboram para ampliar a disseminação da importância da segurança do trabalho no Ceará é o Observatório Analítico de Acidentes no Trabalho, ligado ao Centro de Inovação do Sesi (CIS). O órgão concentra dados concedidos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), desde 2019.

“O CIS permite que o usuário possa filtrar acidentes por estado, ramo de atividade, código de informação de doenças e, ainda, período. A ideia surgiu a partir da necessidade de informações relativas ao tema quando nós, pesquisadores do CIS do Sesi, íamos elaborar projetos para determinados ramos econômicos. Desenvolvemos o observatório para que os interessados pela temática consigam ter acesso à informação de forma rápida e fácil”, explica Rodrigo Nogueira, engenheiro de segurança e pesquisador do Centro de Inovação.

De acordo com ele, a partir dos dados do observatório, o Sesi Ceará consegue realizar um atendimento mais assertivo em Saúde e Segurança do Trabalho (SST), fornecendo exatamente o que a indústria precisa para promover um ambiente mais seguro e produtivo para seu colaborador.

“O Sesi Ceará, além de fornecer serviços de qualidade para atender às normas regulamentadoras, também desenvolve produtos inovadores em SST, por meio do Centro de Inovação, para resolver demandas específicas da indústria. Acredito que, com a publicação de boletins periódicos de dados, consigamos bons resultados em até um ano”, diz Rodrigo Nogueira.

“A segurança do trabalho não envolve só o cuidado com o funcionário, mas também com a saúde. O funcionário bem cuidado pelo gestor vai estar mais apto e disposto a trabalhar. Não é por acaso que os americanos estimam que, de cada US$ 1 investido em segurança do trabalho, o retorno é de US$ 4 para a empresa. O funcionário protegido e com saúde vai produzir muito mais”, analisa Juarez Braga Soares Filho.

Brasil: gasto previdenciário com acidentes passa de R$ 100 bilhões em oito anos

Segundo órgãos internacionais ligados ao trabalho, em torno de 4% do Produto Interno Bruto (PIB) global é perdido a cada ano por doenças e acidentes ocupacionais. O percentual pode chegar a 10% nos países em desenvolvimento, como o Brasil. De acordo com o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT), de 2012 a 2020, foram registrados 5,6 milhões de doenças e acidentes no Brasil, que geraram um gasto previdenciário que ultrapassa R$ 100 bilhões.

“Acidentes geram perdas financeiras, expõem a empresa a multas e ações trabalhistas com ações indenizatórias. Além de impactar o caixa do governo federal com auxílios e aposentadorias por invalidez”, observa o engenheiro Nilson Lima de Oliveira.

Para o engenheiro de segurança Rodrigo Nogueira, os custos gerados pelo aumento do FAP (Fator Acidentário de Prevenção) precisam ser levados em conta pelas empresas. “Esse fator bonifica as empresas com poucos acidentes e onera aquelas com muitos. Ele pode reduzir pela metade ou dobrar a contribuição da empresa destinada ao financiamento do benefício de aposentadoria especial ou daqueles concedidos em razão do grau de incidência de incapacidade laborativa decorrente dos riscos ambientais do trabalho. Tem, também, as ações regressivas que o INSS emprega para ressarcir as despesas do órgão com o pagamento de benefícios previdenciários relacionados a acidentes de trabalho, como pensões por morte e aposentadoria por invalidez. A segurança e saúde do trabalho é um investimento, e não custo para as empresas”, reforça.

“Não só o Ceará, mas todo o Nordeste está evoluindo. Grandes empresas com cultura de segurança implantada ajudam nesse cenário, implementam tecnologias e novos saberes. Infelizmente, ainda há casos de trabalhadores expostos a condições análogas ao trabalho escravo, algo inconcebível nos dias atuais”, analisa Nilson Lima de Oliveira.

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