Economia

Com valor médio de R$ 250, novo auxílio emergencial fica muito aquém das necessidades da população

Novo auxílio não atende necessidade da população, mas respeita teto de gastos

Guedes diz que decisão de ampliar o auxílio emergencial compete ao Ministério da Cidadania (Foto: Agência Brasil)

Giuliano Villa Nova
economia@ootimista.com.br

O valor médio do novo auxílio emergencial, de R$ 250 por pessoa, anunciado ontem pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, ficou abaixo das expectativas. De acordo com os analistas, a quantia está longe de suprir as necessidades básicas da população, embora tenha alcançado o limite orçamentário.

“O valor se aproxima muito do Bolsa Família. Das pessoas que receberam o auxílio emergencial em 2020, 70% ainda não conseguiram retornar ao mercado de trabalho. Por isso, era esperado um valor maior para gerar a capacidade, pelo menos de compra de alimentos, para esses indivíduos”, analisa Ricardo Coimbra, presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE).

Segundo o ministro Paulo Guedes, conforme parâmetros do Ministério da Cidadania, o valor para mulher chefe de família deve ser de R$ 375 e, no caso de homem, de R$ 175. Para o casal, o valor será de R$ 250. Os valores devem começar a ser pagos ainda em março, após a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição 186/2019 (PEC Emergencial).

“Está dentro da capacidade do governo de estourar o orçamento, ou de buscar esse recurso no mercado, diante de um ambiente nada favorável, com a inflação subindo, a fuga de capitais estrangeiros da Bolsa, um choque muito grande de oferta para investidores nos Estados Unidos, as pressões da China sobre o mercado de commodities, entre outros fatores. Diante desse quadro, o valor é razoável, mas do ponto de vista de atendimento às necessidades, é longe daquilo que se imaginava”, detalha o economista Paulo Roberto Kuhn.

Pandemia

Para os economistas, considerando o contexto de empobrecimento da população – atestado, entre outros fatores, pela diminuição dos volumes da caderneta de poupança e a desvalorização do salário mínimo –, após um ano de pandemia, o valor do auxílio deveria ficar em torno de R$ 600.

“Um pouco mais da metade do salário mínimo atenderia melhor essas pessoas em situação fragilizada. Essa ajuda é importante, porque contempla os que vivem realmente marginalizados, fora da força de trabalho, muitas abaixo da linha da pobreza, e vai possibilitar que tenham um mínimo de segurança alimentar e um pouco de dignidade”, observa Paulo Roberto.

Para Ricardo Coimbra, a discussão em torno do valor do auxílio emergencial evidencia a necessidade de soluções mais consistentes para o país, que não devem se ater a programas pontuais. “Os programas de renda mínima deveriam ser remodelados, para se pensar não só em gerar uma renda emergencial, com programas transitórios, mas que gerassem a possibilidade de reinserção no mercado de trabalho, em ação conjunta com projetos de capacitação profissional. Dessa forma, haveria uma capacidade mínima de manutenção, em um primeiro momento, e depois, com a reinserção no mercado de trabalho, não seria mais necessário esse recurso publico”, diz.

Orçamento

Apesar dos esforços da equipe econômica e dos dispositivos da própria PEC Emergencial, será praticamente inevitável comprometer ainda mais o orçamento público, após o pagamento do auxílio, nos próximos meses. “As contas vão estourar, são inevitáveis os impactos para o déficit nominal, operacional e geral”, acrescenta Paulo Roberto Kuhn. “Para amenizar o quadro, o governo terá de diminuir gastos e reduzir o orçamento em outras, como não reajustar o salário do funcionalismo público”, reforça Ricardo Coimbra.

Recuperação da economia deve contemplar todas as classes, apontam especialistas

Auxílio emergencial (Foto: Agência Brasil)

Durante o anúncio dos valores do novo auxílio emergencial, o ministro Paulo Guedes afirmou que, para “reduzir a pobreza e a miséria no Brasil”, é necessário “botar o dinheiro onde está o mais pobre e não nos intermediários”. Para Paulo Roberto Kuhn, é fato que existe a necessidade de contemplar as classes menos favorecidas. Mas isso não será suficiente para recuperar a economia. “A classe média também foi muito penalizada, os indicadores mostram que ela diminuiu bastante o nível de renda. A situação de forma geral é preocupante”, alerta.

Na visão do economista, os prejuízos causados pela pandemia vão demorar a serem solucionados, “e vai ser preciso muito trabalho para mudar a situação. O governo não tem recursos e a iniciativa privada vai esperar para assentar a questão da pandemia”, observa Paulo Roberto. “O ministro está certo em contemplar os menos favorecidos, mas o crescimento só vai vir com a recuperação de todas as classes. E essa não é uma corrida de 100 metros, é mais longa do que uma maratona”, compara o economista.

No ano passado, tiveram direito ao auxílio emergencial: integrantes do Bolsa Família, pessoas incluídas no Cadastro Único (CadÚnico), trabalhadores informais, contribuintes individuais do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e microempreendedores individuais que solicitaram o benefício por meio de plataformas digitais ou aplicativo da Caixa. (Com agências)

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