Economia

Mais cearenses estão gerando a própria energia elétrica

O Ceará tem mais de 20 mil conexões de geração própria de energia solar, espalhadas pelos telhados de residências em 182 municípios. O mercado cearense responde por 3,5% do parque fotovoltaico brasileiro, segundo dados da Absolar. Expectativa é de crescimento acelerado

Crisley Cavalcante
economia@economia.com.br

O professor de física da Universidade Federal do Ceará (UFC), Jeanlex Soares de Sousa, pesquisava há um tempo sobre a geração de energia solar. Preocupado com o aumento do valor da energia elétrica da casa onde mora com a esposa e o enteado, no bairro Parquelândia, em Fortaleza, em janeiro de 2020 ele verificou o orçamento e decidiu investir em placas fotovoltaicas. Na época, a família pagava em torno de R$ 500 e R$ 600 mensais de energia.

O primeiro passo foi procurar uma empresa que solucionasse todas as dúvidas quanto à compra do equipamento, além da instalação e manutenção. O negócio foi fechado naquele mês e ele ficou aguardando a entrega do kit de energia solar. Porém, logo veio a pandemia de covid-19, impactando as atividades econômicas.

Jean e a esposa são professores. Com o fechamento do comércio, passaram a ministrar aulas de casa. Foi então que veio a surpresa: “Estávamos todos em casa, nos três períodos do dia, com praticamente com tudo ligado, inclusive ar condicionado. A conta de energia passou de R$ 1.200 e foi realmente um susto”, conta Jeanlex.

A empresa só conseguiu instalar as placas fotovoltaicas na casa da família em junho de 2020. “Foi a melhor coisa que fiz na vida. Há geração de energia até se tiver nublado. Garante o nosso consumo e ainda sobra para os períodos de chuva, que gera menos. Depois que instalei, percebi que outras pessoas também instalaram. Usamos a energia mais à vontade, mas sem desperdício”, diz. Ao todo, o professor investiu R$ 24 mil nas placas fotovoltaicas A conta de luz mensal da família, que ficava em torno de R$ 500 ou R$ 600 mensais, caiu para cerca de R$ 120 ou R$ 130.

Expansão

A história de Jeanlex revela uma forte tendência no Ceará, que possui mais de 20 mil conexões de geração própria de energia solar em telhados de residências, espalhadas por 182 municípios. São 254,7 megawatts (MW) em operação nas residências, comércios, indústrias, propriedades rurais e prédios públicos. O mercado cearense responde, sozinho, por 3,5% de todo o parque fotovoltaico brasileiro na modalidade.

Atualmente, são cerca de 24.884 consumidores de energia elétrica que já contam com redução na conta de luz e maior autonomia e segurança elétrica. Desde 2012, a geração própria de energia solar já proporcionou ao Ceará a atração de mais de R$ 1,29 bilhão em investimentos, geração de mais de 7,6 mil empregos e arrecadação maior que R$ 340 milhões aos cofres públicos.

Os dados são da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), entidade que congrega empresas e profissionais de toda a cadeia produtiva do setor solar fotovoltaico com atuação no Brasil, tanto nas áreas de geração distribuída quanto de geração centralizada. “O Ceará é um importante centro de desenvolvimento da energia solar. A tecnologia fotovoltaica representa um enorme potencial de geração de emprego e renda, atração de investimentos privados e colaboração no combate às mudanças climáticas”, destaca Jonas Becker, coordenador estadual da Absolar.

Brasil

No Brasil, há mais de 88 milhões de unidades consumidoras só na categoria residencial. “O consumo tem aumentado exponencialmente a cada ano. O potencial é enorme frente às oportunidades, mas é um mercado novo, que ainda está começando. A procura segue crescendo e o preço dos equipamentos já chegou a patamares de valor da Europa. Mas, no País, é possível encontrar linhas de crédito fáceis. Além disso, o sistema se paga”, explica Mário Viana, gerente comercial da Sou Energy, empresa cearense de distribuição e vendas de energia solar.

Solução diante do aumento na conta de luz

Para Daniel Queiroz, do Sindicato das Indústrias de Energia e de Serviços do Setor Elétrico do Ceará (Sindienergia), que congrega mais de 40 empresas associadas, o brasileiro nunca teve oportunidade de fazer e ser protagonista  da sua própria geração de energia elétrica. “Hoje, passamos a ter a cultura de gerar energia limpa. Por isso, mais instituições financeiras entrando no mercado com produtos específicos, para oferecer crédito aos consumidores. O atual momento de crise hídrica não vai passar logo”, afirma.

Para 2022, a expectativa é que a conta de luz no Brasil fique, em média, 20% mais cara, segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Por isso, mais pessoas têm mudado a percepção e passado a conhecer melhor a energia solar. Só não adere ao sistema quem ainda não conhece”, diz. O mercado ainda comemora a aprovação, em agosto deste ano, do Projeto de Lei nº 5829 que confere mais segurança para empresas e consumidores que buscam investir nesse segmento.

Potência instalada

O Brasil possui 4,5 GW de potência instalada em usinas solares de grande porte, o equivalente a 2,4% da matriz elétrica nacional. Desde 2012, as grandes usinas solares já trouxeram ao Brasil mais de R$ 23,5 bilhões em novos investimentos e mais de 135 mil empregos acumulados, além de proporcionarem uma arrecadação de R$ 6,3 bilhões aos cofres públicos.

As usinas solares de grande porte são a sexta maior fonte de geração do Brasil, com empreendimentos em operação em nove estados, nas regiões Nordeste (Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Norte), Sudeste (Minas Gerais e São Paulo) e Centro-Oeste (Tocantins).

Gerente comercial da Sou Energy, Mário Viana, acrescenta que, a longo prazo, a economia no orçamento familiar é muito acentuada. “Nós temos um dos custos de energia mais altos do mundo, que só aumenta ano a ano, sempre além da inflação. Mas hoje podemos dizer que energia solar não é só para ricos. Pessoas das classes C e D podem adquirir e gerar economia para ajudar a compor o seu orçamento”, ressalta, dizendo que o mercado de geração própria de energia deverá crescer ainda mais em 2022.

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