Economia

Caatinga perdeu 75% dos mamíferos em 500 anos

Entre os biomas da América Latina, a caatinga é o mais afetado. Além de animais desaparecidos, processo de miniaturização também impacta negativamente a vida animal e do ecossistema

Ao longo de 500 anos, a fauna na América Latina está desaparecendo. Além do sumiço de muitas espécies, as que sobram são as menores, o que caracteriza processo de miniaturização. Só entre os mamíferos, o desaparecimento atingiu até 75% das espécies na caatinga, o bioma mais prejudicado, segundo estudo assinado por cientistas brasileiros.

A desfaunação não atinge só áreas desmatadas ou queimadas. Ocorre também em regiões de floresta aparentemente preservada que passaram por forte pressão de caçadores. A mata atlântica é o segundo bioma que mais perdeu animais, totalizando 62% de seus mamíferos. O bioma menos afetado na América Latina é justamente o Pantanal (desfaunação de 34%), que hoje sofre os efeitos de uma das piores sequências de queimadas de sua história.

No ranking de países, o Brasil é o terceiro mais atingido pela desfaunação, ficando atrás apenas da Nicarágua e de Honduras. Publicado na revista especializada Scientific Reports, o levantamento é assinado por Juliano André Bogoni e Carlos Peres, da Universidade de East Anglia (Reino Unido), e Katia Ferraz, da Universidade de São Paulo (USP).

A equipe combinou uma série de dados para chegar a suas conclusões. Além de informações sobre a atual distribuição dos mamíferos latino-americanos, extraídas da literatura científica entre 2015 e 2020, eles usaram estimativas sobre qual seria a presença geográfica “natural” desses bichos feitas pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, órgão que define as listas globais de espécies ameaçadas). Também incluíram na análise uma série de fatores que ajudam a estimar a pressão de caça à qual os animais estão submetidos em cada região.

O levantamento incluiu apenas os mamíferos de médio e grande porte, com 1kg ou mais, que são os mais afetados pela desfaunação. Conforme o esperado, a desfaunação na América Latina reduziu a diversidade de mamíferos de forma seletiva, extirpando sobretudo as espécies de maior porte, como os ungulados (animais de casco, como veados e antas) e os grandes carnívoros (onças e ariranhas), bem como os primatas maiores. Esses bichos são o alvo preferencial dos caçadores ou são mais exigentes em termos de habitat e alimentação, desaparecendo primeiro quando seu ambiente está sendo afetado.

O sumiço desses animais fez com que a média de peso das espécies de mamíferos nos habitats latino-americanos, que antes ficava em torno de 15kg, tenha caído para 4 kg. Tudo isso tem impacto não apenas para a viabilidade das próprias espécies, mas para o ambiente como um todo. Nesse contexto, o fogo altera a composição de espécies da mata no curto e médio prazo, o que inevitavelmente modifica a vida dos animais de grande porte e, em vários casos, inviabiliza sua presença na floresta que foi incendiada.

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