Cultura

Grande sucesso no Brasil, o que são as produções do gênero “True Crime”?

Capa do podcast “A Mulher da Casa Abanadonada” / REPRODUÇÃO

Gênero cada vez mais presente no entretenimento, True Crime pode ser traduzido como “crime de verdade” ou “crime real”. Como o nome sugere, esse modelo de conteúdo aborda detalhes sobre casos verdadeiros e o passo a passo das investigações.

Para compor um podcast, um livro, um filme ou uma série do gênero, muitas vezes são utilizados conteúdos jornalísticos como entrevistas, gravações dos tribunais, imagens da cobertura feita pela imprensa ou até dos arquivos policiais. A ideia é passar uma visão mais aprofundada sobre o crime e dar mais espaço aos envolvidos.

Recentemente, muitos produtos brasileiros de True Crime se tornaram sucesso. Os consumidores ficam curiosos para saber as minúcias dos eventos narrados. “O processo de descoberta do caso, quando os investigadores vão em busca de detalhes e a perícia forense descobre coisas por meio da análise do corpo da vítima sempre me chamaram atenção. Eu acho que tenho curiosidade em saber como o ser humano consegue ser tão perverso”, relata a estudante Maria Eduarda Sales, de 23 anos, que é fã desse modelo de conteúdo.

A jovem costuma consumir produtos estrangeiros, mas diz que recentemente tem gostado bastante das produções nacionais. “Acompanho o podcast Modus Operandi, da Carol Moreira e da Mabê Bonafé, há mais de um ano. Acompanhava também o canal da Jaqueline Guerreiro, uma jornalista que faz conteúdo sobre True Crime. E recentemente, eu escutei o podcast do Chico Felitti A Mulher da Casa Abandonada, e achei exelente”.

 

“A violência é mais um produto que gera renda para a mídia”

Diversos motivos podem levar alguém a ter interesse em acompanhar as produções de Crimes Reais: curiosidade, estudo ou até por puro prazer. A psicanalista Juçara Mapurunga conversou com O Otimista sobre o gênero True Crime.

A especialista explicou que todos temos uma força vital que nos move, uma “Pulsão”. “Erroneamente, alguns chamam de instinto, mas não é. Freud explica que todos nós temos Pulsão de Vida e Pulsão de Morte. A primeira, são os impulsos construtivos, que deveriam reger a civilização. Já a Pulsão de Morte são os impulsos destrutivos, são os sentimentos de culpa, o masoquismo, a agressividade, a violência, e isso quer dizer que todos nós temos impulsos violentos”, detalhou. “Então, todo dia, a gente tem que vencer a Pulsão de Morte”, continuou.

“Essa vontade que temos de ver detalhes de crimes, isso é muito antigo. A gente tem há anos aqueles programas, na hora do almoço, que mostram os cadáveres dos crimes, pessoas sendo mortas, sangrando… E as pessoas param para ver aquilo. É uma maneira de exercitarmos, metaforicamente, a Pulsão de Morte.”  concluiu.

Os produtos do gênero estão disponibilizados em plataformas de fácil acesso. A psicanalista apontou as consequências que passar muito tempo consumindo este tipo de conteúdo pode trazer ao ser humano. “Um adolescente, que ainda está em formação, pode muito bem ver aquilo como modelo”, afirmou, relembrando os diversos crimes que foram inspirados no Massacre de Columbine. “Em Psicanálise, estudamos as diferenças estruturais das pessoas. São três estruturas básicas: a neurose, a psicose e a perversão”, pontuou. 

Juçara esclareceu que, dependendo da estrutura de quem assiste, lê ou escuta sobre uma atrocidade, pode ou não ter nenhuma consequência real. A pessoa poderá usar aquele conhecimento para se precaver em alguma situação suspeita ou até utilizar como inspiração para cometer algo parecido. 

“A Psicanálise não condena esse tipo de conteúdo, até porque condenar seria um tipo de censura. Nós recomendamos que isso (os produtos sobre True Crime) seja melhor informado. Afinal, esses programas são usados para fins lucrativos, eles só existem porque têm algum patrocínio que incentiva isso. A violência é mais um produto que gera renda para a mídia. Mas a questão é que proibir esse gênero é pior, tudo que é proibido causa um desejo. O que deve ser feito é abrir espaço para discussão, nas escolas, nas famílias, sobre o porquê de se consumir esse tipo de conteúdo”, disse a profissional.

 

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