Cultura

Beijo pro Gordo! – Uma despedida para o grande Jô Soares

Ator, escritor, humorista, músico e apresentador, Jô Soares morreu na madrugada desta sexta-feira (5), e deixa um legado enorme para a cultura nacional. Seus múltiplos talentos fizeram história na televisão, no cinema, no teatro e na literatura do País

Émerson Maranhão

emerson@ootimista.com.br

 

Jô Soares foi um vulcão em permanente ebulição. Multitalentoso como poucos, foi um senhor de vários ofícios e deixou sua marca de excelência na história da televisão, do teatro, do cinema e da literatura brasileiros.

Homem de erudição rara (ainda mais rara nos dias atuais), fluente em várias línguas, tinha o incomum talento de se comunicar com as massas. De fato, foi um fenômeno popular. Certamente por não subjugar, nunca!, a capacidade de seus interlocutores, quer sejam os telespectadores, plateias, leitores ou os entrevistados no cobiçado “Sofá do Jô”.

Sua efervescência criativa era tamanha que surpreendia a todos. Sempre. Aclamado como ator, autor e humorista nos palcos e telas, cismou de ter seu próprio late-night talk show, formato de entrevista muito popular nos Estados Unidos, mas desconhecido por aqui até o final da década de 1980. Não só o fez como consagrou o modelo, hoje replicado a perder de vista em quase todos os canais televisivos – por óbvio sem o brilho de seu introdutor em terras brasilis, faça-se justiça.

Ser entrevistado pelo Jô Soares em seu programa – tanto no SBT quanto na Globo – tornou-se sinônimo de prestígio e relevância (intelectual, política, artística…). Isso num tempo em que subcelebridades e “influencers” não ocupavam, a granel, os horários televisivos.

Conceituado diretor de teatro, enveredou pela atuação atrás das câmeras uma única vez em O Pai do Povo (1976). Mas foi figura frequente à frente delas, em vários filmes, de diversos estilos e diretores, desde sua estreia em Rei do Movimento (1954) até Lygia, Uma Escritora Brasileira, em 2017, sua despedida da telona.

Desfiar o rosário de seus bem-sucedidos feitos apenas cansaria o leitor e tomaria muito de seu precioso tempo, posto que são muitos. Por isso, este texto não tem tal pretensão. No entanto, humildemente peço permissão para destacar dois deles, a meu ver muito representativos da grandeza e do talento de Jô.

O primeiro é seu livro O Xangô de Baker Street (1995), onde Jô Soares comete a ousadia de trazer para o Brasil o detetive inglês Sherlock Holmes e seu fiel escudeiro Watson para desvendar o misterioso desaparecimento de um violino Stradivarius.

O resultado da premissa – inusitada, por certo – é uma trama deliciosa, em que a dupla britânica se envolve em situações absurdas. No caldo literário entram rituais de umbanda, encher a cara de caipirinha, encantar-se pelos efeitos da maconha, enamorar-se pela malemolência das brasileiras, experimentar feijoada e outros pratos “exóticos” (e sofrer as consequências). Isso tudo com direito à “participação” da diva Sarah Bernhardt, do imperador dom Pedro II, da compositora Chiquinha Gonzaga, num retrato apurado da sociedade do Rio de Janeiro do século 19, a corte e seu séquito de bajuladores. Impagável!

O livro ganhou adaptação cinematográfica em 2001 pelas mãos de Miguel Faria Jr., com o próprio Jô Soares no elenco, protagonizado pelo português Joaquim de Almeida, com participação de grandes nomes como a também portuguesa Maria de Medeiros, o britânico Anthony O’Donnell e os brasileiros Marco Nanini, Claudia Abreu, Caco Ciocler, Thalma de Freitas e Marcelo Anthony, entre outros.

O segundo destaque vai para o Viva o Gordo, primeiro programa de TV comandado exclusivamente por Jô Soares, exibido pela Globo de 1981 a 1987. Com afiadas sátiras sobre a política e o comportamento brasileiro da época, o humorístico emplacou bordões e personagens até hoje lembrados e com papel cativo no imaginário das gerações que hoje têm entre 40 e 60 anos.

Em tempos de disputas pelo “protagonismo de narrativas” e pelo “lugar de fala”, certamente Viva o Gordo incomodaria mais hoje que nos já longínquos anos 80. Ainda assim, é inegável sua fundamental importância em levar para dentro dos lares brasileiros temas como a homossexualidade, a sexualidade, a ditadura, os exilados políticos, a inflação e, de alguma maneira, dar voz à insatisfação geral com o estado das coisas.

Em tempo, um amigo deste humilde escriba costumava dizer que só reconheceria o sucesso de alguém depois que a pessoa tivesse ido “ao Jô”. Nunca fui. Agora, não tenho mais oportunidade de obter essa chancela.

 

Émerson Maranhão é jornalista, roteirista e diretor de cinema. É editor do portal O Otimista

2 respostas para “Beijo pro Gordo! – Uma despedida para o grande Jô Soares”

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